afonso (emoções com ténis)

Quando menos se espera as pequenas coisas acontecem e marcam-nos.

Naquele tempo em Évora todos nos conhecíamos, bem ou mal. Cada um quase era uma figura, o Afonso era mesmo. Distinguia-se pela elegância e bom estilo, a namorada não ficava atrás, antes pelo contrário. Não me recordo se alguma vez bebi uma imperial com o Afonso? Tenho a plena consciência que o Afonso jogava noutra divisão da juventude eborense. A esta distância a divisão café Portugal – Arcada e depois com a intrusão da Zoca até tem piada; na época eram “coisas imexíveis”. Não tenho a plena certeza mas resta-me a memória que o Afonso andava um pouco na margem disto tudo, embora mais para lá (Portugal) do que para cá (Arcada-Zoca). Com o Afonso tinha alguns amigos comuns. Hoje o vereador Eduardo Luciano julga que isto é ficção mas engana-se, era assim Évora há quase 50 anos. Apesar de tudo, em muita coisa, bem melhor que hoje.

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aminata – correr em Évora

Todos, uns mais que outros, sabemos que quando se fecha uma porta se abre um portão. Ou, como uma lesão num joelho pode virar uma oportunidade? Quem corre a maratona sabe que a vontade de o voltar a fazer, e fazer novamente sem fim, nunca passa. De repente passou-me pela cabeça, talvez as Olimpíadas do Brasil não sejam inocentes, voltar à maratona. Porque não o Porto, a rainha das maratonas em Portugal? Como se viu recentemente no Rio, provavelmente, a maratona é a prova desportiva mais imprevisível, tantos são os fatores que contam. Mas o grande desafio acontece nos meses antes, a preparação. Se esta não for a conveniente chegado o dia não há santos que nos valham. Regressado de uns dias de férias, tomada, mais ou menos, a decisão há que passar há ação, a única forma de atingir objetivo, este ou outro qualquer. Quase como “quem corre por gosto não cansa”, com todos estes ingredientes, o disparate, chamado “excesso de treino”, estava mesmo ali à esquina. Na verdade, no pós-férias,   três dias consecutivos com treino de intensidade muito superior ao aconselhado só podia ter dado em lesão. Sobretudo quando as mazelas já são muitas e, com realismo, só faltava saber “onde queres esta lesão”? Assim foi, nesse terceiro dia praticamente não consegui dormir com o joelho a gritar de dor contínua, aguda e persistente.

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the runner terroir

Mais de 40 anos depois os quarenta graus da canícula do domingo de agosto eborense mostrou-me um novo conceito. A corrida tem terroir? Tem. Trinta anos a correr no Alentejo, dez em Cascais – Lisboa e agora de novo Évora mostram – me que inequivocamente assim é. Será mesmo? O que distingue a corrida nestes dois ambientes tão diferentes: Évora e Cascais?

Cometi a loucura de correr às 11:00, não imagino a temperatura, corri no circuito do Alto dos Cucos, na verdadeira e autêntica floresta local de sobreiros e azinheiras, provavelmente o mais autêntico dos terroires alentejanos, onde nem o ondulado do percurso, tal como é o Alentejo, falta neste percurso. Para me confortar cruzei-me com outros. Aqui tudo é bom mas falta-me quase tudo. Falta-me a planura do beira Tejo onde gastei muitas sapatilhas, o cruzar com os mesmos de todos os dias, a brisa marítima, a recuperação no banho turco do Britânia…Tudo isto de Cascais é melhor? Não, seguramente. O sobe e sobe e desce do Alto dos Cucos, o piso de terra, a qualidade do ar e a proximidade de casa são valores fabulosos. E depois do esforço o que dizer de um banho no grande lago Atlântico, ou, em Évora, um duche no pátio do Siza? O que é melhor? Como sempre, provavelmente, a resposta mais certa está no dia de hoje, aqui no presente, onde estou; jamais no “lá ontem”. No entanto há diferença, não necessariamente melhor ou pior, se assim não fosse a mesma casta em terroires diferentes daria o mesmo vinho. Sentir a terra onde corremos e a ambiência do lugar ( o genius loci dos arquitectos ) é certamente o melhor para correr como para tudo o resto.
É melhor o Eduardo das Conquilhas que o Luís do Frei Aleixo? Não creio. O essencial posso controlar, não depende da qualidade do cozinheiro ou das sapatilhas ou de qualquer outro factor externo, depende de mim, só de mim. Este é o enorme desafio, o único desafio que nada tem a ver com os 40 graus do Alentejo ou com a brisa do Tejo. É também por isto que gosto da “oração da corrida”, fica muito claro o meu grande desafio. Assim seja até ao fim dos meus dias, correr sempre.

emoções com ténis em évora

evorarun 16 - chegada29 de maio 2016, evora run evorarun 16 vanessaimage Há qualquer coisa como 42 anos comecei a correr nesta Évora. Poucos corriam. Corri porque desporto em Évora, nessa época como hoje, não é fácil. Desde que saía de casa até que regressava ouvia bocas. A corrida é fácil, uns ténis, uns calções – sempre calções, confesso que não me soa bem gajos com leggings – estrada ou campo e já está. O difícil, como em tudo, só está na cabeça de cada um. Ainda por cima os ténis são leves e acompanham-nos para todos os lados. Hoje corri pela primeira vez numa competição em Évora. Sem ritmo de corrida, com poucos quilômetros nas pernas, mas com emoção. A emoção de uma corrida misturada com muitas outras, tantas que não dá para listar. Logo à saída da Praça do Giraldo sou-me um Bé – o Tó Mané numa bike disfarçado com um capacete, quase impossível reconhecê-lo. Como sabemos a corrida é uma excelente oportunidade para pensar, reflectir e até mesmo meditar; às vezes roça a oração. Rapidamente o meu passado recente de corrida passou pela tela das minhas melhores memórias – os muitos amigos da Parede e arredores, o Britânia, os muitos treinos de inverno ou verão, noite ou dia  – que fácil é correr e conversar com o Francisco e como os quilómetros passam a ouvir o Pedro Loureiro – e as muitas corridas a ver passar o Rui Pedro e a ouvir o eborense Júlio Meireles a animar a festa. Ainda houve tempo para o enorme Falcão e saber que o Favinha ficaria nos 10 primeiros. Resta – me a Vanessa que entre as aulas da Maria João Cabrita e as adegas, praticamente sem treinar, continua a não nos envergonhar; segundo lugar da geral, com 43 min, logo atrás da atleta dos Diana. Talvez por tudo isto a corrida de Évora foi estranha. Os poucos que reconheci, mais velhos, bem mais velhos como eu, vi-os passar quase todos vestidos de amarelo, a cor da corrida em Évora. Diferente é não se falar, tudo a correr e ninguém diz nada, que falta cá fez o Pedro Rodrigues ou o Belo, ainda tentei meter conversa mas não houve resposta. O percurso é simpático e a organização cumpriu, pena não haver a informação quilométrica ao longo do percurso, bastava um spray na estrada. Uma boa experiência no Alentejo despovoado com pouca gente a correr o que me levou ao pódio com o segundo lugar de veteranos V, coisa nunca vista, só mesmo no Alentejo. A roda da vida não pára e antes que o dia acabe o Simão, um dos dois cães da minha vida, partiu, a M João Oliveira voltou ao hospital e no sentido inverso o meu querido vizinho Agnelo comemorou 66 anos.

évora – meia maratona

[no Alentejo somos únicos, quem tem uma medalha de cortiça? ]

No Alentejo somos únicos, quem tem uma medalha de cortiça?

Na escrita o meu maior prazer é escrever positivamente no DS sobre Évora/Alentejo.

Finalmente Évora vai ter uma corrida que merece esse nome. A meia maratona de Évora é muito mais do que uma corrida. É um evento com uma enorme importância, económica, social e cultural. Uns mais do que outros, todos sabemos que a corrida é um fenómeno mundial. As razões são múltiplas e também bem conhecidas.

Há um pouco mais de 40 anos comecei a correr nas ruas, estradas e campos de Évora, nunca mais parei e quando sou obrigado a fazê-lo por algum impedimento físico os dias correm-me pior. Sair do Chafariz d’ el Rei seguir pela circular à muralha e ir ao Alto de S Bento foi durante muitos anos a minha clássica. Muitas, mas muitas vezes também ia e vinha ao aeródromo, pela estrada de Viana. Hoje é diferente mas não tanto como deveria ser. Isto é, fazer desporto em Évora não é nada fácil e é um dos aspetos que me leva a sorrir quando me dizem que Évora tem boa qualidade de vida – é falso. Nesse tempo era adolescente e comecei a correr porque não tinha alternativas para além do futebol, rugby e natação. Mais ou menos como hoje. Também é justo escrever que se há males que veem por bem este é um deles, Évora empurrou-me para a corrida porque nada de desporto tinha/tem, e ainda bem.

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sofrer

joelhoVá lá saber-se porquê ontem, sábado, no sempre esperado treino de fim de semana, em Évora as pernas pesaram como chumbo. Maldita cabeça. Continuo com a mania que todo o mal está neste músculo a que se chama cérebro, para quem o tem.

Também sem saber a razão, as dolorosas passadas da manhã de Évora tiveram o efeito de decidir alterar radicalmente o plano de fim de semana. Pouco tempo depois estava na viagem solitária para Lisboa. E foi nestes quilómetros de boa música, com média quilométrica absurdamente baixa, que me lembrei da Corrida da Linha, hoje de Carcavelos até à bonita baía de Cascais.

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à beira Tejo

Na TSF Runners 2015 com Pedro L e José V. Foto de JV.

Há muito que nada escrevo na “emoções com ténis”. As corridas têm sido poucas ou nenhumas. Neste final de época, para compensar, em dois fins de semana consecutivos duas boas corridas: TSF Runners e Lagoa de St André.

Aproveito as boleia do José Vale e aqui vão algumas (boas) emoções com ténis.

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a corrida da vergonha

Fico com vergonha de calçar uns ténis de 100 € e ir correr por prazer.

 

Sara

Por todo o país, da arquitetura à medicina, da moda ao desporto, há Saras que se distinguem e que são permanentemente ignoradas. Este país, que todos conhecemos, tem aversão a distinguir e reconhecer o mérito, sobretudo no feminino.

Na verdade, o desporto, pelo mediatismo que tem, presta-se muito para a referência e o exemplo.

Sara Moreira, a enorme atleta portuguesa, merece todo o reconhecimento que se lhe possa fazer. Quase que apetece escrever que há mais vida para além de Ronaldo, obviamente sem o mínimo desprimor para este. Um ano depois de ter sido mãe, Sara Moreira, na estreia da distância, consegue o terceiro lugar na maratona de Nova Iorque. Quem corre uns quilómetros, como aqui já confessei que faço há mais de 40 anos, consegue fazer uma modesta ideia do que significa ficar em terceiro nos 42,192 quilómetros de uma das mais emblemáticas provas do atletismo mundial, ainda por cima quando se está a estrear na distância. “Sou ambiciosa e acredito sempre”, disse a atleta a propósito do que viveu em Nova Iorque, no dia que é apenas o culminar de uma vida de trabalho, persistência e dedicação.

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episódio de vida a correr

Apesar do défice de horas de sono, como sempre, acordei cedo e levantei-me pouco depois.

A primeira tarefa, escolhida por razões óbvias, foi escrever o texto semanal para publicação nos periódicos. O duplo prazer aconteceu ao escrever sobre corrida, concretamente sobre a fabulosa Sara Moreira. A motivação para o tema foi uma recente entrevista da Sara sobre o seu terceiro lugar na maratona de Nova Iorque – para quem não tem noção há uma palavra que pode sintetizar o feito: épico. Isto porque o que a Sara nos conta é uma lição para os desafios da nossa vida e pode sintetizar-se na sua frase: “sou ambiciosa e acredito sempre”. Em tempos de desafios permanentes é assim que temos de acordar todos os dias: fortes e determinados.

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Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan