àgua como fogo

Às vezes, a curiosidade é maior que o bom senso e cometemos “loucuras”. Assim foi no feriado de 15, em que rumei a Cáceres pelo Tejo, onde a Confraria Ibérica do Tejo (CIT) organizou um seminário. Mais um a juntar a dezenas de outros que deste há muito vão acontecendo. Como cristão, interrogo-me se terá sido pecado dedicar um feriado santo a ir a Cáceres. Na verdade, os rios merecem isto e muito mais e, no fim, valeu a pena ir a Cáceres. A nova CIT pode ser uma boa oportunidade para cuidar do Tejo, mas aquilo que presenciei em Cáceres deixa-me muitas dúvidas: mais do mesmo, isto é, gastar dinheiro que contribui para a nossa pobreza. Bom, o certo é que em Cáceres o Tejo estava bem representado, o que infelizmente só por si não chega. Do mais curioso que se passou em Cáceres foi, na primeira mesa redonda do dia, ficar evidente que cada um dos presentes tinha uma ideia diferente do que se estava ali a passar. O ponto alto do ridículo aconteceu quando a representante do Governo português, Helena Freitas – mulher com peso, porque coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior – se viu obrigada a intervir e a dizer aos organizadores o que estavam ali fazer.

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argila

Argila somente.

Argila, quando já tudo era a argila É.

Um “ser”, como cada um de nós, que não se repete, cada argila é única.

Provavelmente esta é a palavra mais local e global do nosso léxico.

Local porque não há lugarejo que não tenha argila e global porque é o material mais comum, e mais rico, do planeta. Na verdade a argila, o simples barro, é o material mais precioso da Terra.

Global porque é um dos materiais naturais mais comuns, e mais rico, do planeta. Na verdade a argila, o simples barro, é um dos materiais mais preciosos da Terra.

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cancioneiro da sustentabilidade

professores

Ser professor é um privilégio.

Saber alguma coisa sobre minerais possibilita compreender quase tudo o que se passa na superfície da Terra; até a riqueza e a pobreza, conforme hoje se considera, de acordo com a distribuição dos minerais na crosta terrestre. Siga-se qualquer caminho e esbarramos nos ditos, pois eles estão presentes em tudo e também na cadeia alimentar e na qualidade da água.

Voltei aos minerais e para saber um pouco mais, designadamente com outro olhar, bem mais experiente na matéria e, muito importante, com enorme experiência aplicada, participo, com imensa gratidão, nas aulas da minha colega Rita. É um privilégio poder ouvir a Rita.

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ciclo

[esta é a história do ciclo hidrológico e litológico um dia escrita para um aluno do secundário]

   (água)

Não há principio nem fim. Nada começa nem acaba, tudo evolui dum estado a outro.

As minúsculas partículas de vapor de água agregam-se (condensam-se) por acção da pressão e temperatura e caiem sobre a forma de chuva, neve ou granizo na superfície da terra. Essa água escorre (rios) ou infiltra-se (água subterrânea – nascentes, poços e furos), uma outra parte evapora-se e regressa desde logo de onde veio, às nuvens. Aqui, nesta fase, as plantas têm um papel essencial – evapotranspiração. A água subterrânea liga-se à superficial pelas fontes e nascentes. As fontes e nascentes alimentam os rios. Tudo isto é um ciclo, composto por pequenos ciclos que não param.

Parte de toda esta água é permanentemente evaporada, e também evapotranspirada pelas plantas e passa a nuvens.

Os rios chegam aos oceanos. Estas enormes massas de água evaporam-se e acabamos no início.

Assim é o ciclo da água.

A água é só uma.

(rochas)

Igual à água é o ciclo litológico.

Terra é um ser vivo. Nada está estático na Terra.

A muitos quilómetros de profundidade, no seio do planeta Terra (a Mãe Terra), todos os materiais estão fundidos, uma pasta mais ou menos viscosa a que chamamos magma. A Os magmas são fluidos e por isso têm boa capacidade de migração, muitas vezes chegam à superfície e dão origem aos espectaculares e magníficos vulcões. Na superfície os magnas arrefecem rapidamente e dão origem a rochas amorfas, sem cristais, os minerais não têm tempo para se desenvolver (ex: basalto). Em profundidade os magmas arrefecem lentamente e todos os elementos químicos que os constituem organizam-se por afinidade química e por temperatura e pressão características (processo que se chama cristalização fraccionada – os diferentes minerais têm temperaturas e pressões de formação muito próprias) e vão-se formando constituindo as rochas cristalinas (com cristais visíveis, o granito é um bom exemplo). A Serra de Sintra, visível num terço, os restantes 2/3 estão submersos pelo Atlântico, ou a Serra da Estrela são dois magníficos exemplos de maciços essencialmente graníticos.

Estas rochas magmáticas, também ditas primárias, ao longo da história da Terra, onde tudo está em movimento (tectónica de placas, orogenia – formação de cadeias montanhosas, os Himalaias por exemplo, etc), à superfície da Terra (a Serra da Estrela p.e.) ficam sujeitas aos agentes meteóricos (chuva, vento, temperatura etc.). Daqui resulta um fenómeno que se chama erosão. Todas as rochas à superfície da Terra ficam sujeitas à erosão, “sofrem “ as acções, químicas e físicas, do clima. Estes materiais, ficam então sujeitos ao agente de transporte, o vento ou a água (pensar nas dunas ou num rio). Para além da alteração física (também conhecida por meteorização) a água actua quimicamente sobre os minerais que constituem as rochas magmáticas e todas as outras. Por isso além da carga sólida, os calhaus no fundo e os grãos em suspensão, há um conteúdo químico dissolvido na água dos rios ou na água subterrânea (em permanente contacto com as rochas) que resulta do contacto da água com as rochas.

Os materiais sólidos, quando o agente de transporte perde capacidade de transporte, depositam-se. Pensar nos calhaus nas margens do rio ou dos mouchões do Tejo. A areia das praias é transportada dos continentes pelos rios. Por isso, às vezes, ouvimos dizer que as barragens podem afectar as praias. As barragens retêm o transporte da carga sólida.

Também os materiais dissolvidos por modificação das condições de pressão e temperatura através de ligações químicas formam novos minerais e rochas. Um exemplo disto são alguns calcários resultantes de precipitação química.

Este tipo de rochas chamam-se sedimentares, resultam dos sedimentos que têm origem na rocha mãe pré-existente.

Os sólidos depositados no oceano, ou na foz de um rio (o rio aí perde a sua capacidade de transporte e deposita) vão–se afundando na crosta da Terra pelo peso dos que vão ficando por cima até atingirem zonas mais profundas do manto da Terra. Este fenómeno é muito importante e chama-se subsidência. É a subsidência que leva os materiais depositados a afundarem-se na crosta da Terra até atingirem o manto. Estas rochas sedimentares (formadas por materiais que resultam de outras) em profundidade, na Terra, ficam então sujeitas a pressões e temperaturas elevadas. Estamos no ambiente metamórfico. As rochas são as metamórficas. Os calcários passam a mármores. Um mármore não é mais que um calcário cristalizado. Uma argila (constituída por grãos muito finos e formada, por exemplo em ambientes muito calmos como lagos ou em fundos oceânicos onde é possível estes grãos da dimensão de poeiras depositarem), sujeita a estas pressões e temperaturas (metamorfismo) dá origem a um argilito e depois a xisto.

A seguir todos estes materiais ficam sujeitos, como sempre acontece, a temperaturas e pressões ainda mais elevadas fundem e eis, aí está o magma.

Muito brevemente este é o ciclo litológico, sem princípio nem fim, onde tudo se transforma.

Para compreendermos o ciclo litológico devemos pensar no factor tempo. O tempo, os milhões de anos da história da Terra é tão importante como a pressão e a temperatura. Um exemplo: há muito, muito pouco tempo, se considerarmos toda a história da Terra (cerca de 4,5 mil MA) o Tejo desaguava na lagoa de Albufeira, muito a Sul da Costa da Caparica. Há cerca de 100 milhões de anos o mar chegava a Abrantes.

A geologia só se pode compreender se tivermos uma noção, ainda que aproximada, da importância do tempo. Provavelmente é por isso que se diz: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.

 

Geoloucos 30 anos

Alguns ainda acreditam que há 30 anos nos cruzámos, por acaso, à volta de uns calhaus. E também, por acaso, alguns de nós tivemos ontem umas horas de memória, presente e futura. Já, que mais não seja, o futuro dos filhos que foram orgulhosamente exibidos em bonitas fotografias. São bonitos como os pais e mães que estiveram nas Docas.

Geoloucos 30 anos (pdf) 

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan