a cultura e o vinho

Do lado de cá do Tejo, há quase um ano, um conjunto de pessoas que representam diversas entidades levam a cabo uma tertúlia mensal sobre o vinho – Coisas de vinho. Antes de tudo convém não ignorar que, neste país de matriz essencialmente rural, a vinha é a cultura agrícola mais importante de Portugal. Li algures que representa cerca de 10% da área agrícola do país. Para além de tudo o resto, magníficas adegas, enologia de grande valia, enoturismo em alta etc., esta dimensão agrícola a montante de tudo é de longe o mais relevante. Poucos temas serão tão transversais e identitários com a cultura e tradição da região onde trabalhamos e vivemos, os patrimónios associados à vinha e ao vinho tenderão para o infinito.

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Diário da Região (Setúbal e tudo à volta)

Colaboração regular com o Diário da Região.

É com gratidão, responsabilidade e expectativa que inicio esta colaboração periódica com o Diário da Região – primeira e terceira semana de cada mês.

Faço-o porque me identifico com os valores e matriz do jornal, essencialmente na sua dimensão local. É aqui, no local,  que existem os recursos que todos conhecemos; solo, água, território e, sobretudo, pessoas. É no local que vivem pessoas.

No inicio de mais um ano, tempo de balanços e prospectivas, a questão é, como ser feliz em 2017 na terra onde vivemos?

Andamos nas ruas, entramos num café, atendemos um telefonema e batemos na verdadeira crise – a crise dos cinzentos que somos, a grande massa de povo que se deixa (des)governar. Todos aqueles que conhecem todos os seus direitos, que esperam que as condições para serem felizes lhes sejam oferecidas por alguém. É altura de tomarmos a decisão de governar o nosso barco. O “serei feliz quando…” não existe! É a desculpa perfeita para sermos, cada dia, mais infelizes. Deixar de esperar que sucedam algumas coisas para sermos mais felizes é o primeiro passo para o sermos.

Texto completo em:

https://www.dropbox.com/home?preview=feliz+onde+nasci+-+ccupeto+-+10+jan+17.pdf

 

 

propósitos para 2017

palavras-chave-2017

 

no início de um novo ciclo (2017) defino os propósitos que vão merecer particular atenção nas minhas atitudes.

ano novo

Ano Novo é quase uma expressão mágica envolta por um véu que para além do qual desejamos espreitar e ter boas vistas. Sempre assim é e o resultado final é sempre o mesmo: ao dia sucede-se a noite e o amanhã depende do que somos hoje. Simples, certo e seguro; tudo o resto é bem mais incerto.

Vivemos um tempo de incerteza mas onde o essencial está à parte e por isso é certo. E nesta equação o mais relevante, a grande e boa notícia, é que esse essencial depende somente de cada um de nós.

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Árvore de Natal

Embora o Presépio e a Árvore de Natal tenham passado para um plano secundário, para muitos, felizmente, ainda têm algum significado pelo seu enorme simbolismo e não só. Por ora, parece que o que conta é quem tem o maior presépio e árvore mais alta, quiçá com mais luzes.

Cada vez mais admiro as árvores. Num tempo em que a tecnologia avança a um ritmo mais rápido que a própria mentalidade do homem, mas que nada resolve do essencial, a árvore converte-se num ponto de referência indispensável. As suas qualidades – imobilidade, estabilidade, neutralidade e equanimidade, assim como a sabedoria do seu ritmo – dão-lhes um especial valor como amigas e conselheiras. Repare-se no comportamento das árvores face às estações do ano, uma enorme sabedoria.

A semana passada caminhei, com o grupo “Tejo a pé”, por Monsanto (Lisboa). As árvores ajudam muito a restabelecer o diálogo correto entre o ser humano e a natureza.

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sequestro libertador

Quando uma Opinião à quinta-feira é publicada no O Mirante é conveniente que, pelo menos, a “inspiração” de outro tema já ande pela cabeça. Há semanas de fartura e alguns escritos potencialmente oportunos e interessantes até se perdem, e outras em que o tema falta.

Há pouco no refeitório do edifício da universidade onde trabalho ouvi parte de uma história no mínimo curiosa. Esta juventude, às vezes, deixa-me perplexo. Apesar de não ser nada interessado em conversas alheias era uma hora calma e a proximidade das mesas tornou a coisa incontornável. O diálogo ocorreu entre uma rapariga, talvez com uns trinta anos, e uma outra provavelmente uns anos mais velha que parecia ter o papel de boa conselheira. O que me “ligou” à conversa foi claramente a expressão dita pela mais jovem em tom bastante alto e convicto, “foi o sequestro que me libertou”. Um amor impossível (?) terá levado essa rapariga a um episódio rocambolesco, aparentemente questionável, mas claramente apontado como salvador. Pelo que ouvi essa rapariga mais jovem foi fechada num quarto para evitar males maiores com o tal amor.

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vindima

Nos nossos campos é agora o tempo da vindima. O fim, ou início, de um ano trabalho; como alguém disse um dia “um ano inteiro à espera dela e um mês à espera que ela acabe”, tal não é a intensidade de trabalho da colheita e trabalho da uva na adega.

Vem isto a propósito de um recente artigo onde li “se as vinhas dessem dinheiro não havia tanto terreno abandonado”. Parece que há algo contraditório. Tudo o resto me diz o contrário. Mais, tenho a convicção que o vinho é um dos setores em que o nosso país se pode orgulhar e seguir o exemplo: empresariou-se e modernizou-se. Mas não, ambas as visões são bem verdadeiras. Por um lado há um país, autêntico, rural, próximo, que tende a desaparecer, sem escala competitiva num modelo global, e por outro, há o sector do vinho bem organizado e estruturado. O país próximo que alguns ainda vivem é bem expresso no texto do O Mirante, onde se lê “pela generosidade do Ribatejo mesmo nos dias mais tristes”. Abençoados homens e mulheres que cuidam da vinha para os 200 litros de vinho que garantem o consumo doméstico para o ano, “porque bebo pouco”.

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Pucariça (Aldeia do Mato – Abrantes)

Em boa hora nas minhas férias de excelência pelo Zêzere-Tejo passei e fiquei um tempo pela Pucariça.  Desde logo porque fui encontrar o casal Kau e Cláudia meus queridos ex-alunos de há muitos anos e amigos. As “coincidências” pregam-nos partidas, quase sempre boas como esta.

Na Pucariça conheci a TerradÁgua, as palavras certas são difíceis e provavelmente sempre escassas e redutoras. Muito agradeço à Marina e ao Tó Zé o provarem, na prática o que sintetizo na expressão UP LOCAL; na verdade o up local é uma realidade.

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Paulo Ribeiro

otros mundos esteve em baixo.

Não esteve de férias, foi vitima de um ataque informático que o pôs of. Alguém que bem poderia usar as suas competências a fazer algo que valha a pena fez o que não deve.

Felizmente há sempre um “anjo da guarda” que anda por perto e repõe a devida Ordem.

Tenho o privilégio de ter trabalhado com o Paulo Ribeiro durante muitos anos; vi-o crescer como pessoa, sempre de grandes valores, e como técnico.

Nutro pelo Paulo uma grande admiração e amizade.

Ao longo da vida, em muitos e variados contextos trabalhei com muita gente de valor e enorme mérito, como o Paulo não há.

Expresso uma enorme gratidão ao Paulo Ribeiro a quem devo Otros Mundos e muito mais.

the runner terroir

Mais de 40 anos depois os quarenta graus da canícula do domingo de agosto eborense mostrou-me um novo conceito. A corrida tem terroir? Tem. Trinta anos a correr no Alentejo, dez em Cascais – Lisboa e agora de novo Évora mostram – me que inequivocamente assim é. Será mesmo? O que distingue a corrida nestes dois ambientes tão diferentes: Évora e Cascais?

Cometi a loucura de correr às 11:00, não imagino a temperatura, corri no circuito do Alto dos Cucos, na verdadeira e autêntica floresta local de sobreiros e azinheiras, provavelmente o mais autêntico dos terroires alentejanos, onde nem o ondulado do percurso, tal como é o Alentejo, falta neste percurso. Para me confortar cruzei-me com outros. Aqui tudo é bom mas falta-me quase tudo. Falta-me a planura do beira Tejo onde gastei muitas sapatilhas, o cruzar com os mesmos de todos os dias, a brisa marítima, a recuperação no banho turco do Britânia…Tudo isto de Cascais é melhor? Não, seguramente. O sobe e sobe e desce do Alto dos Cucos, o piso de terra, a qualidade do ar e a proximidade de casa são valores fabulosos. E depois do esforço o que dizer de um banho no grande lago Atlântico, ou, em Évora, um duche no pátio do Siza? O que é melhor? Como sempre, provavelmente, a resposta mais certa está no dia de hoje, aqui no presente, onde estou; jamais no “lá ontem”. No entanto há diferença, não necessariamente melhor ou pior, se assim não fosse a mesma casta em terroires diferentes daria o mesmo vinho. Sentir a terra onde corremos e a ambiência do lugar ( o genius loci dos arquitectos ) é certamente o melhor para correr como para tudo o resto.
É melhor o Eduardo das Conquilhas que o Luís do Frei Aleixo? Não creio. O essencial posso controlar, não depende da qualidade do cozinheiro ou das sapatilhas ou de qualquer outro factor externo, depende de mim, só de mim. Este é o enorme desafio, o único desafio que nada tem a ver com os 40 graus do Alentejo ou com a brisa do Tejo. É também por isto que gosto da “oração da corrida”, fica muito claro o meu grande desafio. Assim seja até ao fim dos meus dias, correr sempre.

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan