alterações climáticas

pacto ecológico europeu

ao longo de décadas quantas “boas intenções” destas já houve? o que aconteceu? porque vai agora ser diferente?

coisas de vinho

um livro incontornável

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a última noite de Z Herbert em Siena, na Toscana, terra de Chianti,  antes de viajar para Paris…

“A pequena trattoria enche-se da multidão dos clientes…

Com conhecimento e apetite, que cresceram de geração em geração, comem spaghetti, bebem vinho, conversam, jogam às cartas e aos dados.

Peço ao dono da trattoria um vinho melhor. Traz-me um chianti do ano anterior da sua própria cave. Conta-me que a sua família possuía aquela vinha há quatrocentos anos e que aquele é o melhor chianti de Siena. Depois, ficou a olhar para mim atrás do balcão para ver o que eu faria com aquela preciosa bebida.

É preciso inclinar o copo para ver o líquido deslizar pelo vidro e verificar se não deixa vestígios. A seguir, é preciso erguer o copo até aos olhos e, tal como diz certo conhecedor francês, afundar os olhos em verdadeiros rubis e contemplar a bebida como se fosse um mar chinês repleto de corais e algas. O terceiro gesto é o de aproximar a boca do copo ao lábio inferior e aspirar o cheiro mammola – o buquê de violetas que anuncia às narinas que o chianti é bom. É preciso inspirar o aroma do vinho até ao fundo dos pulmões para reter o odor das uvas maduras e da terra. Por último, evitando a pressa de um bárbaro, deve levar-se à boca um pequeno gole e, com a língua, espalhar o sabor escuro e aveludado pelo céu-da-boca.

Regresso às Tre Donzelle. Apetecia-me acordar a camareira e dizer-lhe…

Se não tivesse medo da palavra, diria que até ali fui feliz. Mas não tenho a certeza de ser bem interpretado.

Vou-me deitar com os versos de Ungaretti. Na sua obra, há um poema apropriado a despedidas;

Vejo de novo os teus lábios lentos

À noite, o mar vai ao seu encontro

As patas do teu cavalo

Em agonia mergulham

Nos meus braços cantantes

Vejo que o sono traz de novo

Novos desabrochares e novos defuntos

Uma má solidão

Que todo o amante em si descobre

Como um vasto túmulo,

Separa-me de ti para sempre,

Querida, afogada em espelhos longínquos.”

política

13 de maio é 13 de maio.
a política voltou em boa hora.
os grandes estadistas que nos governam afinal enganam-se uns aos outros;
com o dinheiro dos nossos impostos.

conversas de cesta

até lá converse, lanche e ame.

tele mobilidade

nem tudo é mau. durante esta fase de confinamento, uma das coisas boas foi o ministro do ambiente Matos Fernandes ter desaparecido. ei-lo de regresso, sempre com brilhantismo, a pedir aos autarcas que apresentem propostas/soluções para tirar os automóveis das cidades. lindo: como se isto fosse como o estalar de dedos. não nos basta o vírus?

dicionário covid

o Público de hoje lista o conjunto de palavras que todos queremos esquecer. acrescentei duas. entram-me em casa todos os dias e estou farto delas:

achatar a curva, assintomático, cerca sanitária, confinamento, coronabonds, covid 19, distância social, estado de emergência, gel desinfectante, graça, layoff, marta, máscaras, pandemia ro, segunda vaga, tele…, testes, vacina, ventiladores, wuhan, zaragatoa.

(adaptado de Público, 3 maio 2020)

trancas na porta arrombada

ri palhaço, chora homem, ladra cão.

a porta foi arrombada e estes palermas, os supostos guardiões da democracia, ainda não perceberam que nada controlam e que tudo sabem acerca deles. Como escreve JM Tavares, se querem o meu telemóvel, para minha segurança, fiquem com ele.

já agora paguem a conta.

polícia

e, num repente, há polícia por todo o lado. sente-se a polícia na rua. onde é que eles estavam?

desejo que não se esqueçam dos bandidos.

abril, sempre

Aquando do estado de emergência fiquei surpreendido por muitos sentirem que  poderia estar em causa a “sagrada família” da democracia de abril: direitos, liberdades e garantias.  Uma ameaça à democracia gritaram, considerei um despropósito. Todavia, sou agora obrigado a reconhecer que eles tinham razão. Os Órgãos de Soberania que nos impuseram e confinaram no Estado de Emergência ameaçam e põem em risco a democracia. Se assim não fosse haveria necessidade de agora comemorar abril na Assembleia da República? Uma iniciativa ao arrepio de tudo o que nos foram contando, contra tudo e todos. Todas as contraindicações, que me abstenho de enumerar, são tantas, estão vinculadas à festa programada e anunciada. Revolta-me não ter a liberdade de comemorar como entendo com os meus amigos. Vislumbro, apenas, duas razões que justificam tamanho absurdo. Pesa-lhes a consciência pelo confinamento antidemocrático a que nos submeteram e, assim, com esta “festinha” dão-nos uma espécie de compensação. Ou, pior ainda, os Órgãos de Soberania, sabem que o descontentamento do povo é tanto (corrupção, decadência dos serviços públicos, pobreza, etc.) que ao fim de 46 anos de democracia sentem a necessidade incontornável de assinalar a data, não vá a malta esquecer-se. Seja como for muito mal vai a coisa. Vamos lá explicar, porque razão, por esse país fora o povo (quem mais ordena) não poderá fazer as festas que muito bem entenda?

Talvez fosse bom, e uma salvaguarda da democracia, o povo começar a pensar pela sua própria cabeça.

Juntos venceremos e a reação não passará.

e agora?

Neste mar de dúvida, medo e incerteza devemos apostar no mesmo caminho que nos trouxe até aqui?

Toda a retórica diz-nos que devemos retomar quanto mais depressa melhor. Retomar, é mais do mesmo: 225 mil voos num só dia. Milhões de pessoas em trânsito numa vida, que está na “nuvem”, sem custos, low cost. Como se a vida fosse digital. Vai-se a um supermercado e compra-se, em qualquer altura do ano, um frasco enorme de pimentos assados (que a nada sabem) por menos de 2€. Este valor não paga o vidro do frasco, o rótulo, a tampa de metal. Vale a pena pensar em todos os outros valores e o que pagamos por eles?

E agora?

Obviamente que as centenas de milhar de camas dos hotéis espalhados pelo país não podem ficar vazias de um dia para ou outro. A transição, quando estivermos dispostos a fazê-la, ou formos obrigados, não será fácil e levará anos. Mais uma razão para começar já. O up global tem que dar lugar ao up local; mesmo que o não queiramos. Portugal tem de ter a sua própria agenda. Temos camas a mais e gente a menos: fácil de resolver, quando o problema da Terra é gente a mais. Uma equação muito fácil. Estamos na hora de uma grande reflexão pessoal e coletiva. Desde logo temos de voltar a um tempo que tenha “tempo” para as estações do ano, tempo para viver.

É tempo dos valores e da ética, de aprender com os erros e ter a coragem de mudar, mesmo que seja ao revés de muitos dos outros. A aposta nos nossos próprios recursos. Devemos apostar num turismo de alto valor, porque temos um capital natural único e muito geobiodiverso, um caminho de longo curso. Quase o oposto das “carradas de turistas depredadores” que nos invadiram. O nosso sonho tem que contar, essencialmente, com o que temos à porta de casa, o up local. Temos de vencer a ignorância e a falta de cultura e empreender uma revolução. Enquanto tratamos das emergências do momento, este tempo tem de servir para desenhar o futuro que queremos.

Ou queremos que fique tudo na mesma?

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan