miseráveis

Sem jamais o imaginar, a experiência de sete horas de vindima noturna trouxe-me a mais verdadeira e dramática fotografia do país que somos. Acreditem que não me recordo de ter alguma vez ficado tão chocado e revoltado com o país onde nasci e vivo. No meio da madrugada de vindima, um jovem colega de tesoura na mão, a propósito de um jantar de turma/curso, comentou-me que estava sem trabalho depois de concluir um excelente (as suas palavras) curso de vídeo; vídeo? interroguei-o, pois julgava essa palavra morta e enterrada há muito. “Técnico de vídeo, aprendi TV, cinema e a fazer tudo o que tem a ver com este sector; pena que por cá não haja trabalho nesta área”, esclareceu.

Não compreendi totalmente se é “falta de trabalho ou de emprego”, mas perante a questão de fundo isto pouco importa. O dito curso não foi concluído há alguns anos mas há uns meses, foi tirado numa escola profissional dada como referente. Muito provavelmente por isto, pela “excelência” do estabelecimento de ensino, há poucos dias a abertura do ano letivo foi abrilhantada pela presença do ministro das finanças Mário Centeno, imagine-se. Questionado pelos jornalistas sobre esta opção, Mário Centeno considerou esta escola “um referencial importante” ao nível da educação profissional na região, tratando-se de um estabelecimento de ensino “em que se aproxima a escola de forma bastante clara ao mercado de trabalho, à atividade económica”. O ministro frisou que isso “é muito importante para os jovens”, que precisam de estar “atentos a essas oportunidades”. Parece anedota mas não é, é verdade e é miserável.

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vindima

Nos nossos campos é agora o tempo da vindima. O fim, ou início, de um ano trabalho; como alguém disse um dia “um ano inteiro à espera dela e um mês à espera que ela acabe”, tal não é a intensidade de trabalho da colheita e trabalho da uva na adega.

Vem isto a propósito de um recente artigo onde li “se as vinhas dessem dinheiro não havia tanto terreno abandonado”. Parece que há algo contraditório. Tudo o resto me diz o contrário. Mais, tenho a convicção que o vinho é um dos setores em que o nosso país se pode orgulhar e seguir o exemplo: empresariou-se e modernizou-se. Mas não, ambas as visões são bem verdadeiras. Por um lado há um país, autêntico, rural, próximo, que tende a desaparecer, sem escala competitiva num modelo global, e por outro, há o sector do vinho bem organizado e estruturado. O país próximo que alguns ainda vivem é bem expresso no texto do O Mirante, onde se lê “pela generosidade do Ribatejo mesmo nos dias mais tristes”. Abençoados homens e mulheres que cuidam da vinha para os 200 litros de vinho que garantem o consumo doméstico para o ano, “porque bebo pouco”.

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argila

Argila somente.

Argila, quando já tudo era a argila É.

Um “ser”, como cada um de nós, que não se repete, cada argila é única.

Provavelmente esta é a palavra mais local e global do nosso léxico. Local porque não há lugarejo que não tenha argila e global porque é o material mais comum, e mais rico, do planeta. Na verdade a argila, o simples barro, é o material mais precioso da Terra.

Os agricultores, sobretudo os da vinha, falam em terroir, os arquitectos em genius loci, qualquer homem se falar na argila como a mais autêntica alma do lugar não erra.

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a europa e o nosso campo

Cork é uma média cidade no litoral do sul da Irlanda, com cerca de 130 mil pessoas. Nunca lá estive mas deve viver-se bem em Cork. Vem isto a propósito desta cidade ter acolhido em 1996 e 2016 (5 e 6 de setembro) uma “Conferência europeia sobre o desenvolvimento rural” promovida por Phil Hogan, Comissário Europeu para a Agricultura e Desenvolvimento Rural. Seria interessante comparar as conclusões de 96 com as de 2016 e, sobretudo, avaliar resultados após 20 anos de trabalho – desde 96 até hoje. Não vamos por aí, pois a conclusão fundamental é bem conhecida de nós, portugueses: “aos costumes disse nada”. Afinal não somos assim tão diferentes dos povos mais a norte.

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Conversas de Cesta

set-2016-1

em setembro voltamos à nossa rede informal  de partilha de informação útil; a tertúlia Conversas de Cesta.

Convido-vos a participar e passar um bom momento no final de tarde de domingo num local agradável.

Muito agradecemos a vossa ajuda na divulgação, junto dos vossos amigos, contactos e redes sociais, etc.

fogo 2

Fogo, a saga continua.

Os números do Portugal ardido são impressionantes. Nada de novo, como sempre a atenção e o esforço do país vão para o combate ao fogo e para o rescaldo, a “longa conversa”, sempre a mesma, do após. Todavia, desta vez há algo diferente, temos um Presidente da República que diz presente. Será que isto se traduz nalguma coisa de positivo? Só o tempo o dirá. Pelo menos quem sofreu o flagelo do fogo sente o conforto e a esperança que alguma coisa possa mudar mas, e sobretudo, espera que tenha a ajuda necessária no tempo próprio.

A área ardida em Portugal é tanta como em todo o resto da Europa. Isto é, por muito menos bateram-nos à porta para nos governarem, a tal troika. Não fora a distorção de valores e conceitos em que vivemos e haveria muito mais razões agora para que os nossos parceiros nos pedissem contas. Deixo a pergunta: o que vale mais, a floresta ou os bancos? Na verdade o que se perdeu em Portugal com o fogo é incalculável e está muito longe de nos pertencer só a nós.

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fogo 1

Agora que o frenesim do regresso às aulas nos faz esquecer (quase) tudo, é a altura ideal para dar, mais uma vez, a minha achega a tão problemático tema – os fogos.

Antes da questão do dia convém deixar claro que, naturalmente, admiro e enalteço toda a ação de voluntariado em prol do próximo.

Como todos os anos, o tema da floresta e dos incêndios esteve largas semanas na agenda e em tempo de rescaldo as contas já todas foram feitas? Nem todas. Ainda não compreendi se os enormes prejuízos dos incêndios deste ano têm, ou não, influência nas contas do país? Julgo que tão pouco a maioria de nós tem a perceção de que ficámos todos muito mais pobres, e não apenas os que perderam casas ou outros bens, isto sem falar nas vidas humanas que mais uma vez se perderam – sempre os mesmos, os mais frágeis (idosos, pobres…). Na verdade, depois de tanta tinta e conversa ainda não percebi quanto custa nem de donde vem o dinheiro para fazer face à catástrofe?

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aminata – correr em Évora

Todos, uns mais que outros, sabemos que quando se fecha uma porta se abre um portão. Ou, como uma lesão num joelho pode virar uma oportunidade? Quem corre a maratona sabe que a vontade de o voltar a fazer, e fazer novamente sem fim, nunca passa. De repente passou-me pela cabeça, talvez as Olimpíadas do Brasil não sejam inocentes, voltar à maratona. Porque não o Porto, a rainha das maratonas em Portugal? Como se viu recentemente no Rio, provavelmente, a maratona é a prova desportiva mais imprevisível, tantos são os fatores que contam. Mas o grande desafio acontece nos meses antes, a preparação. Se esta não for a conveniente chegado o dia não há santos que nos valham. Regressado de uns dias de férias, tomada, mais ou menos, a decisão há que passar há ação, a única forma de atingir objetivo, este ou outro qualquer. Quase como “quem corre por gosto não cansa”, com todos estes ingredientes, o disparate, chamado “excesso de treino”, estava mesmo ali à esquina. Na verdade, no pós-férias,   três dias consecutivos com treino de intensidade muito superior ao aconselhado só podia ter dado em lesão. Sobretudo quando as mazelas já são muitas e, com realismo, só faltava saber “onde queres esta lesão”? Assim foi, nesse terceiro dia praticamente não consegui dormir com o joelho a gritar de dor contínua, aguda e persistente.

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Pucariça (Aldeia do Mato – Abrantes)

Em boa hora nas minhas férias de excelência pelo Zêzere-Tejo passei e fiquei um tempo pela Pucariça.  Desde logo porque fui encontrar o casal Kau e Cláudia meus queridos ex-alunos de há muitos anos e amigos. As “coincidências” pregam-nos partidas, quase sempre boas como esta.

Na Pucariça conheci a TerradÁgua, as palavras certas são difíceis e provavelmente sempre escassas e redutoras. Muito agradeço à Marina e ao Tó Zé o provarem, na prática o que sintetizo na expressão UP LOCAL; na verdade o up local é uma realidade.

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pós-férias

Durante alguns anos tive responsabilidades públicas nos rios do Tejo, estudar, autorizar, licenciar. Sempre que possível, indiscutivelmente sempre que necessário, saí da secretária e estive no local; muito poucas foram as semanas que fiquei em Lisboa. Todavia, depois das férias deste ano, confesso-vos que não conhecia suficientemente a realidade; isto não significa que o serviço, no caso a ARH do Tejo I.P., não cumprisse a função: usar e valorizar a água.  Felizmente, desde a Guarda até Lisboa,  a equipa da ARH integrava técnicos locais de enorme valor e conhecimento que sempre apoiavam a tomada da melhor decisão  pelo bem público e interesse dos utilizadores, quase sempre conciliáveis.
Durante uma semana andei, no sentido literal do termo, a melhor forma de conhecer uma região, pelas bacias do Tejo e Zêzere, pelos pequenos e únicos rios destas grandes bacias hidrográficas.

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Tema adaptado de Esquire de Matthew Buchanan.