sardinhada

No tempo dos ridículos do corona e do país corrupto só me interessa tudo o resto; neste tempo de verão, as sardinhas assadas no topo, uma das mais valias que nos distingue superiormente. De Setúbal a Matosinhos não faltam catedrais. Deus abençoou-me com o privilégio de ter amigos em Setúbal, Sesimbra, Ericeira, Peniche e Nazaré, entre outros terroirs. Sim, o mar é igual à terra, tem terroir. O vinho é igual ao peixe. As maçãs iguais às batatas, o lugar é determinante. Em qualquer destas terras come-se o melhor peixe do mundo, coitados dos que não sabem ou não o podem saborear. A sardinha é o peixe da época. Os meus amigos de Setúbal, sobretudo o Fernando e o Jorge, e de Peniche, o Tó Zé, o presidente da câmara que pôs Peniche no mapa mundial do surf, que me perdoem, mas as melhores sardinhas assadas do mundo e arredores estão em Évora.

Não é por acaso, a coisa tem história com quase 100 anos. Nessa época, um casal, ali da Igrejinha e Graça do Divor, instalou-se na Rua do Inverno, 5 (965 155 939) e abriu a Taberna do Pita, alcunha de José dos Santos Pisco, o avô do Nuno. Depois do avô passou o Joaquim dos Santos Pisco, o pai do Nuno.  A coisa tem mesmo história, verdadeira e genuína, que o Nuno neste tempo honra da melhor forma: tudo o que serve é muito bom. Vem isto a propósito das sardinhas assadas que o neto do Pita serve e levam ao céu todos os comensais de bom gosto. Para além da qualidade dos bichos o Nuno sabe assar, faz uma salada divina e serve um Antão Vaz estupidamente gelado que compõe o ramalhete. Se faz favor guarde este segredo.

morangueiro (por Miguel Boieiro)

O que vou contar parece inverosímil face às mudanças sociais, culturais, económicas, tecnológicas e políticas que entretanto se verificaram e continuam a verificar. É bom recordar para atentar bem de onde viemos e para onde vamos. Tinha este cronista 12 anos e nunca havia saboreado morangos nem sequer sabia o que eram dióspiros, kiwis, ananases, abacates, anonas e outras espécies que agora são comuns nos supermercados em todas as épocas do ano. No inverno tinha algumas laranjas e tangerinas que caíam no chão porque as colhidas na árvore eram muito caras. Bananas, só quando alguém ia à cidade. Na primavera já se colhiam peras, damascos e ameixas. Também havia maçãs riscadinhas que os palmelões vinham vender porta-a-porta. No verão e no princípio do outono é que tínhamos fartura de figos e uvas. Ora um belo dia primaveril, lembro-me como se fosse hoje, vi na montra da Frutaria Polar um morango vermelho, carnudo, atraente, fotogénico, provocante. Custava dez tostões. Uma fortuna, naquela altura! Guloso, como sempre fui, nesse dia não resisti. Sacrifiquei parte da quantia que tinha para o almoço e comprei o tal morango. Confesso que fiquei desiludido. Tinha-o imaginado muito doce e saiu um fruto meio ácido que, num ápice, desapareceu na minha ávida goela.

Era assim a vida! Nas terras arenosas e galegas onde vivia, ainda não se dominava o regadio e a cultura dos morangos não era conhecida. Os pobres consideravam os morangos como algo de sofisticado e coisa de gente fina. Bem sei, que esta prosa pode ser esquisita à luz das realidades atuais, mas tenham paciência! Apeteceu-me iniciar desta forma a croniqueta sobre o morangueiro.

Entre a extensa e variada literatura que existe sobre os morangos, escolhi o Caderno Naturista da coleção “Alimentos que Curam”, dirigido por Nicolas Capo do Instituto de Trofoterapia de Barcelona, publicado em 1971, na sua 2ª edição. Logo na capa do pequeno caderno escreve o ilustre Professor: O morango é muito medicinal e rico em vitaminas. Convém aos doentes do fígado, rins, estômago, da prisão de ventre, reumatismo, gota, anemia, doenças dos ovários, etc. É um manjar dos deuses, morangos com mel e natas; embeleza o rosto e a pele e é um elixir de juventude.

Parece estar tudo dito para que os morangos sejam mimados. Vamos, no entanto, aduzir mais alguns ensinamentos.

Acontece que a Fragaria vesca, espécie silvestre euroasiática é uma herbácea perenifólia e estolonífera (com rizomas) da família das Rosaceae. Tem folhas tripartidas, com margens dentadas, levemente pilosas na parte de baixo. As flores hermafroditas, com cinco pétalas obovadas, são brancas e, por vezes, rosadas. A polinização é feita por insetos, principalmente por abelhas e o período de floração é longo. Dizem os especialistas que o morango é tecnicamente um pseudofruto já que provém de um recetáculo floral desenvolvido que apresenta pequenos pontos verdes ou pretos e que são esses os verdadeiros frutos. A multiplicação da planta faz-se essencialmente através de estalões (guias) enraizados.

A tal Fragaria vesca com frutos muito pequenos, após sucessivas manipulações e cruzamentos genéticos originou as espécies híbridas que encontramos nos mercados. Há hoje mais de 20 espécies com ampla distribuição em zonas temperadas e subtropicais. Julga-se que a Fragaria x ananassa é a que gera morangos maiores e mais carnudos que não são necessariamente os melhores, mas como os olhos comem primeiro…

Os morangos contêm vitaminas B5, B6 e C, betacaroteno, fósforo, potássio, cálcio, ferro, selénio, magnésio, ácido fólico, cítrico e málico, pectinas, fibras, hidratos de carbono, antioxidantes…

Entre as propriedades medicinais, para além das já mencionadas, refere-se que são estimulantes do apetite, diuréticos, antirreumáticos, alcalinizantes, auxiliares da circulação sanguínea, fortalecedores dos ossos, redutores dos problemas cardiovasculares, têm ação anticancerígena, etc. A infusão das folhas alivia inflamações e catarros respiratórios e em gargarejos afasta o mau hálito. O “chá” das raízes é bom para debelar problemas da boca e da garganta. Os morangos amassados fornecem ótimas cataplasmas para curar chagas, feridas e queimaduras. Em banhos de imersão são calmantes. Entram também na elaboração de cremes para a cútis, reduzindo manchas e sardas.

Na culinária, especialmente na doçaria, os morangos são altamente versáteis. O professor Capo elenca no seu caderno algumas dezenas de receitas naturistas, recomendando que não convém comer morangos como sobremesa e não se devem misturar com hortaliças, saladas, gorduras, fritos, vinagre e bebidas alcoólicas.

Acrescente-se que as folhas tenras do morangueiro são comestíveis.

A terminar, uma precaução muito importante: sendo o morangueiro uma planta rasteira sempre em contacto com o solo, os seus frágeis frutos podem contaminar-se facilmente. Deste modo, convém ter muita atenção acerca da sua proveniência e preferir sempre os que são de cultura biológica.

casta alentejana

Sou independente, democrata liberal que presa a liberdade individual e a responsabilidade perante os outros;  somos todos iguais nos direitos e nos deveres. Entre outras, há duas coisas que me custam: conversar com alguém que se julga dono da “verdade” e ser politicamente correto, só porque sim.

Orlando Ribeiro, o maior geógrafo português de sempre, explica o que somos pelo terroir, isto é, pela geologia e clima. Se é assim com vinho e com tudo o resto porque não seria com os humanos? Na verdade, o minhoto é diferente do alentejano como Orlando Ribeiro exemplifica. Somos a terra onde nascemos e vivemos. Se não perceber isto paciência. Sou branco, moreno, quase meio “aciganado”, alentejano e assim serei até ao fim; diferente dos algarvios, dos louros da Holanda e dos pretos de África. Somos todos diferentes. Aqui, no Alentejo, sobretudo a seguir ao almoço o ritmo de trabalho não pode ser elevado. Se não compreendem, os conterrâneos da Merkel que venham cá experimentar uma semana e depois conversamos. Não quero os queijos franceses, o vinho de Bordéus, as pizzas italianas ou os 5 jotas espanhóis; quero os queijos do Cano, os chouriços de Estremoz, o presunto de Barrancos, o vinho da Vidigueira ou Borba e o azeite de Moura. Isto, e tudo à volta, é o melhor do mundo para o meu modo de vida na terra onde nasci. Por isto e muito mais, sou um obcecado pelo up local, não agora, desde sempre. Eu sou, a vida que tenho é o que Sou, nem mais nem menos. Contrariar isto é contra a Natureza; o resultado começa a ser demasiado inequívoco para ser negado. Quero ser remediado e feliz, na terra onde nasci, honrando a cultura e os saberes dos meus antepassados. Pode ser?

casta alentejana

Henrique Monteiro (Expresso, 20 jun 2020)

Orlando Ribeiro, se não se importam, o maior geógrafo português de sempre, explica o que somos pelo terroir, isto é, pela geologia e clima da terra que nos vê nascer. Na verdade, o minhoto é diferente do alentejano como ele exemplifica. Somos a terra onde nascemos e vivemos. Se não perceber isto paciência. Sou alentejano e assim serei até ao fim; diferente dos algarvios, dos louros da Holanda e dos pretos de África. Somos todos diferentes. Aqui, no Alentejo, sobretudo a seguir ao almoço o ritmo de trabalho não pode ser elevado. Se não compreende lamento; os conterrâneos da Merkel que venham cá experimentar uma semana e depois conversamos. Não quero os queijos franceses, as pizas italianas, os vinhos da Toscana ou os 5 jotas espanhóis; quero os queijos do Cano, os chouriços de Estremoz, o presunto de Barrancos, o vinho da Vidigueira e o azeite de Moura. Isto, e tudo à volta, é o melhor do mundo para o meu modo de vida na terra onde nasci. Por isto e muito mais, sou um obcecado pelo up local, não agora, desde sempre. Eu sou, e a vida que tenho é o que Sou, nem mais nem menos. Contrariar isto é contra a Natureza; o resultado começa a ser demasiado inequívoco para ser negado. Quero ser rico, ser feliz, na terra onde nasci, honrando a cultura e os saberes dos meus antepassados. Pode ser?

o que me conta a minha janela…

a minha janela

vivemos um novo “normal” com muitas incertezas e medos, porque não dizê-lo, que nos assolam diariamente, mas temos uma certeza: a minha escolha (compreensivelmente agora um pouco mais limitada) depende só e só de mim. O que escolhe depende só de si.

o que fazemos com o tempo que agora temos e que não tínhamos?

o que faz com o “confinamento domiciliário” é uma escolha sua; porque não fazer boas escolhas?

convite:

escrever um texto sobre o que lhe conta a sua janela: emoções, medos, ansiedade, saberes, paisagens, geografias, vizinhanças, expetativas, cores, vidas, luz, noite, dia, …

uma página A4, espaçamento 1,5, letra 12.

proponho que além da página de texto associe 1 ou 2 fotografias da sua janela.

também vou escrever o que me conta a minha janela e partilhar convosco.

cupeto@uevora.pt

espero pelas vossas partilhas (anónimas) até 14 de abril.


mudar de vida

Entre medos e dúvidas quase todos acreditam que depois da tempestade é possível, e aconselhável, ficar tudo na mesma. Parece-nos normal e natural que no centro histórico de Évora existam mais de 200 alojamentos locais para turistas? É aceitável que num só dia ocorram 225 mil voos? Já agora, uma última pergunta: para que nos interessa enterrar milhões e milhões na TAP? A conversa não vai por aí, hoje. Na verdade o que ouvimos, depois da pandemia, é voltar tudo ao mesmo. Quanto antes melhor. A equação que temos para resolver é complexa e exigiria decisões únicas e improváveis. É óbvio que isso, para já, não vai acontecer. Os donos da nossa vida, muitos a viver em Bruxelas, não querem. Vendemos a alma ao diabo e o diabo conhece-nos. Temos a vida na “nuvem” e temos andado todos muito descansados a viver no máximo. Tudo nos exige, mais produtividade e mais consumo, sem regras; crescimento. O deslumbramento pela globalização convém a muito poucos mas tolda a vista a quase todos. Agora mesmo, o teletrabalho, no meu caso dar aulas e acompanhar os alunos, virou uma loucura de pressão sobre todos, mais um “vírus” que contagia e estraga o que podia ser salutar. O que me resta? Acreditar e ter esperança que cada vez há mais pessoas que pensam pela sua cabeça e se vão inconformar com esta coisa.

“Quem pode impedir a primavera? Se as árvores se vão cobrir de flores. Quem? Se os sonhos maus do inverno dão lugar à primavera?” De um poema de Ruy Cinatti. A nossa condição de humanos exige-nos que sobrevivamos, mas,  com ética e valores.

março CC

programa da Conversas de Cesta em março; uma rede informal de partilha de saberes úteis:

Tejo a pé – 23 fev. Magoito, Lomba do Pianos, Praia da Samarra

A onde te levam os teus passos? Andar, enquanto prática básica humana, é um ato físico, mas também, e não menos, cultural. Não há melhor forma de conhecer uma região, uma cidade, um povo. Andar tem um enorme eco espiritual, cultural e político. Todos no Tejo a pé sentimos isto, se andarmos o mundo, a terra onde vivemos, é melhor. Andar liberta-nos da geografia como nenhuma outra forma de deslocação. Andar é um ato de união, é isso que fazemos há mais de 10 anos, muito informalmente, sem caprichos, no Tejo a pé. Andamos porque sim. Andamos devagar, pouco, ao ritmo de todos, mas andamos. Andar é ver o mundo à nossa volta como nos esquecemos de o fazer, é redescobrir terras conhecidas, para, finalmente nos conhecermos melhor. Andar é, provavelmente, o verbo com mais significado, incluindo viver. Mesmo o caminho de ida e volta nunca são iguais e isso ensina-nos muito. “Caminhar é uma das belas artes” (Thomas De Quincey, Londres, 1802), venha daí connosco, em fevereiro dia 23, na boa terra de Sintra, com passos na zona do Magoito-Praia da Samarra.

Programa completo:

https://www.dropbox.com/s/bt5rk29649danh4/tejo%20a%20p%C3%A9%20em%20fevereiro.pdf?dl=0

sabedoria

serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para modificar aquelas que posso mudar e sabedoria para reconhecer a diferença.” (Leitura Diária, 21, out, 19)

maratona de fora

hoje vivi a maratona de Lisboa de fora. Corri em sentido contrário um ou 2 quilómetros, toquei os olhos deles; meditar nos Himalaias é igual. Murakami, quando vendeu o bar e escolheu ser escritor, escreveu: “comparável à maratona, só escrever um livro” (determinação, esforço, persistência, capacidade de sacrifício…).

para quem está de fora as palavras são: admiração, transcendência e nostalgia.

[por favor, por vocês, corram a maratona]

em 2013 foi assim:

Rock’n Roll Marathon Series – Lisbon Marathon 2013


Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan