para lá do Marão

Hoje é daqueles dias em que o “adoro escrever, só detesto começar” é ainda mais verdade. O “Tejo a pé”, um grupo de caminhada informal, esteve em Trás-os-Montes, ou seja, o “Tejo andou no Douro”. Este país é único; rios como os nossos não há mais na Europa. Em contrapartida, todos os outros (Espanha, Itália, França…) têm melhores igrejas, castelos, monumentos… É só por esta verdade que insisto no património natural da nossa terra como o maior dos valores turísticos e verdadeiramente distintivo. Andámos no Douro, mais concretamente no Tua, fruto de uma parceria com a Casa do Lagares Vara e Pedra, muito mais que uma casa de campo, na pessoa do biólogo Paulo Pinto. O Paulo preparou-nos um magnífico fim de semana que incluiu várias dimensões do que faz um humano feliz. Em Vilas Boas, no bonito concelho de Vila Flôr, bem para lá do Marão, no Parque Natural Regional do Vale do Tua, andámos cerca de 11 quilómetros de um encanto difícil de escrever e retratar. Jamais imaginámos que seria possível em Portugal andar tal distância continuamente com vistas soberbas.

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pós-férias

Durante alguns anos tive responsabilidades públicas nos rios do Tejo, estudar, autorizar, licenciar. Sempre que possível, indiscutivelmente sempre que necessário, saí da secretária e estive no local; muito poucas foram as semanas que fiquei em Lisboa. Todavia, depois das férias deste ano, confesso-vos que não conhecia suficientemente a realidade; isto não significa que o serviço, no caso a ARH do Tejo I.P., não cumprisse a função: usar e valorizar a água.  Felizmente, desde a Guarda até Lisboa,  a equipa da ARH integrava técnicos locais de enorme valor e conhecimento que sempre apoiavam a tomada da melhor decisão  pelo bem público e interesse dos utilizadores, quase sempre conciliáveis.
Durante uma semana andei, no sentido literal do termo, a melhor forma de conhecer uma região, pelas bacias do Tejo e Zêzere, pelos pequenos e únicos rios destas grandes bacias hidrográficas.

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agosto

férias 2016 1

Fui tirar umas cópias num daqueles centros em que os comerciantes trabalham sem horas e sem meses; aqui agosto, quando tudo debanda em férias, é igual a qualquer outro mês. A senhora das cópias comentou que muito gostaria de voltar ao Gerês mas que a vida não a deixa. Também li sobre férias num jornal on line um artigo sobre o magnífico S. Lourenço do Barrocal, um cinco estrelas no campo aos pés de Monsaraz, onde alguém comentava e se queixava que “aquilo” não era para as posses de qualquer um…, grande mentira; fui lá tomar um café num soberbo fim de tarde e ainda provei magníficos vinhos sem pagar um tostão. Vivi como posso o cinco estrelas no campo mas garanto-vos que foram umas horas muito bem passadas.

Em Portugal o melhor é borla.

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andar (convite para caminhar no verão)

andar é a melhor das actividades físicas, sobretudo neste tempo artificial de “cultura de ginásio”.

para conhecer uma terra, cidade ou um povo nada se compara como o andar a pé.

se juntarmos o andar e a natureza o resultado roça o divino.

experimente e verá, no Tejo a pé vivemos informalmente, em grupo de amigos/conhecidos, esta verdade.

Tejo a pé no Notícias do Mar de junho:

https://www.dropbox.com/home?preview=tejo+a+p%C3%A9+em+junho.pdf

Convite para caminhar no verão:

Centro de Ciência Viva de Estremoz (Universidade de Évora)

http://www.ccvestremoz.uevora.pt/home/

julho

dia 23, 10:00, praia da Parede: “geobiodiversidade, algumas páginas da história da Terra na praia das Avencas (Parede)”

dia 24, 10:00, praia do Guincho: “a história da Terra do Guincho à serra de Sintra”

setembro

dia 3, 10:00, praia da Parede: “geobiodiversidade, algumas páginas da história da Terra na praia das Avencas (Parede)”

dia 4, 10:00, praia do Guincho: “a história da Terra do Guincho à serra de Sintra”

inscrição obrigatória em:

http://www.cienciaviva.pt/veraocv/2016/

 

picos da europa ou caminho do rei

como todas esta é uma montanha única.

respeitosa, com as suas leis.

a última vez que lá estive foi em 2000, uns duríssimos e angustiados dias  na procura da Maria que viria a ser encontrada morta oito dias depois do seu desaparecimento.

numa dessas jornadas, depois de muitos quilómetros por atalhos, às vezes quase verticais e aparentemente intransponíveis, quase à noite, chegamos a este desfiladeiro de montante (por cima)…

(uma excelente sugestão para o feriado de 25 de abril – dependendo do estado do tempo nos Picos)

Ou, como alternativa, dentro do mesmo registo mas para sul, Málaga, o famoso desfiladeiro do Caminho do Rei:

http://www.caminitodelrey.info/es/#1

provavelmente a mais espetacular reabilitação de uma rota de um desfiladeiro no mundo…

 

 

 

tertúlia – a caminho de Santiago de Compostela

santiago 1

 

 

 

 

 

 

 

 

santiago 2

O que motiva tanta gente a andar para Santiago?

Esta foi a pregunta de partida para uma animada e participada Conversa.

Um simpático de grupo, alguns com a peregrinação feita e mesmo repetida, e quase todos os outros com esse sonho, trocaram histórias, experiências e saberes.

Quando assim é a Conversas de Cesta vale a pena.

A Caminho de Santiago é um projeto a concretizar em grupo. Vamos a Santiago.

E tu?

rota das azenhas – Guadiana (Serpa)

Provavelmente já poucos duvidam que o campo faz bem. A natureza contagia-nos positivamente e andar no campo é terapêutico. Nenhuma outra atividade física proporciona tantos benefícios no organismo com tão pouco esforço. Por isso, caminhar não é uma perda de tempo nem uma forma de nos cansarmos inutilmente. Nada se compara com o caminhar, o avião leva-nos às terras mais distantes, mas é no andar que encontramos a melhor forma de conhecer uma região, de viver patrimónios e conhecer gente.

Há alguma forma melhor de viver uma cidade do que percorrê-la a pé? Por que razão estamos esquecidos de andar a pé? Por que nos levaram a esquecer a possibilidade de caminharmos dois, três ou mais quilómetros até ao emprego ou escola?

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bastão

bastao 2

Castelo de Vide, 2016, a alegria de ter um bastão de “avelano”.

Para quem anda um bastão (vara) tem três funções principais, sustenta a marcha do caminhante – como um terceiro pé – e confere poder, faz a ligação entre a Terra e o Céu e, finalmente, tem a função de proteção, por exemplo, de cães.

Em 2000 no caminho francês para Santiago tive o privilégio e a responsabilidade de merecer uma vara e uma vieira entregue por Pablito. Em Azqueta, uma aldeia Navarra, “Pablito de las varas” recebeu-me em sua casa – museu vivo do Caminho. Só com o passar do tempo, e dos quilómetros, fui compreendendo o verdadeiro significado daquelas horas com Pablito, um ícone do Caminho. Muito mais que me oferecer o famoso bastão de “avelano”, Pablito ensinou-me a usá-lo e a caminhar. Os mais de 650 km que ainda faltavam até Santiago foram percorridos de maneira diferente. Muitas, mas muitas vezes, a vara que me acompanhava, quase que serviu de senha, às vezes senha silenciosa.

com pablito 1

Azqueta, em 2000, a 650 km do destino, Pablito ofereceu-me e ensinou-me a caminhar com um bastão.

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Uns anos depois, por 2004, quando vivi num monte alentejano próximo de Évora, em pleno inverno a mulher que me passava as camisas, acendeu a lareira com este meu sagrado bastão. Só em 2016, no dia 17 de janeiro, em Castelo de Vide/Marvão, voltei a ter uma vara de “avelano”.

Como um simples pau pode fazer feliz uma pessoa!

e tu? [caminho de Santiago]

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“para quê tantos quilómetros de esforço se o posso fazer em 30 m aqui no quintal?”

Partir de novo chega para justificar. Roger Nimer escreveu, “os caminhos são os únicos que podem acalmar as nossas vidas.”

Como se explica este atrativo coletivo crescente pelo caminhar com sentido?

É inverno, os dias são muito curtos, os satélites dizem-te que vais ter chuva e mais chuva todos os dias, no caminho que te propões fazer ninguém te deve nada, estás à mercê das gentes para te alimentares e alojares… Porquê partir? Quem te chama? Este é o convite à humildade que devemos ter na arte da vida, no caminho não somos mais que um, entre muitos, e isso é grandioso.

Para quê repetir o que já fiz anteriormente, por uma mochila às costas e caminhar até Santiago de Compostela? Para fazer turismo barato(?)? Para fugir do bulício das Festas? Para andar, com sentido? Para refletir sobre os próximos desafios? Para encontrar um novo sentido para a vida? Para meditar, orar?

Caminhar e pensar?

“Se queres compreender, discutir corretamente, imaginar, organizar o teu pensamento, conceber e decidir, caminha. Caminha, e então verás.” (Henri Vicenot)

Passar do sentar ao andar eleva-nos a uma curiosa alquimia onde tudo fica mais claro e límpido, com um cérebro mais sereno e um coração mais inspirado.

Este é um relato pessoal de “um caminhar” até Santiago.

Texto completo em:

https://www.dropbox.com/sh/6y10lnx96zx355h/AAAfBoFA-nwU2eg9BKXSaNLTa?dl=0

Um comentário de Carlos Pessoa a 20 de fevereiro de 2016…

Olá Carlos,

Li o teu roteiro de viagem a Compostela, que não sabia que tinhas feito. Boa malha (apesar da chuva)!
O que escreveste é particularmente ambicioso (não é crítica!), pois é sempre muito difícil conjugar num mesmo registo a vertente prática-informativa, as impressões-vivências pessoais de percurso e a partilha de emoções e outros “estados de alma”. É bem possível que a quem estiver mais interessado em saber como fizeste, por onde andaste, o que deve ser evitado, em suma, o “modos operandi” do caminheiro, a tua narrativa saiba a pouco. Para quem é mais sensível às experiências e vivências interiores (a que tu chamas internas), o texto dará mais resposta, embora nestas coisas a subjectividade da experiência de cada um seja, em rigor, de difícil transmissão/partilha. O importante, tudo somado, é que as tuas andanças tenham acrescentado algo de novo ao que existia antes de teres começado a caminhada, e isso parece-me que sim, foi atingido. Se assim foi de facto, fico muito contente por ti! Deixo um reparo de ortografia, quando dizes algures que era noite “cerrada”, e não “serrada”, como escreveste.
C.

 

 

2016

Acabámos de viver esta meia dúzia de dias, entre o Natal e o Ano Novo, em que todos depositamos enormes expetativas. E agora? O que fazer entre o Ano Novo e o Natal? Este Natal a vida convidou-me a mudar alguma coisa, não resisti e fui atrás, tentei fazer algo que me fosse útil no tal longo período do Ano Novo ao Natal, para além de comprar o Borda d’ Água.

Com todo o simbolismo que isso possa ter, o efeito transformador de umas dezenas de quilómetros com uma mochila às costas, o sentir o ar do campo e a visão de magníficas paisagens, imbuído de uma tradição, de uma memória e de uma carga emocional que se perdem nos séculos, no passado dia 31 cheguei a Santiago de Compostela a pé.

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Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan