espanhas

“Prisioneiros da Geografia”, de Tim Marshall,  foi um dos excelentes livros que li nas férias e que clarifica muita coisa; ou pensam que os portugueses são diferentes dos espanhóis – aqui tão perto – por obra do acaso? Porque será que o alentejano é tão diferente do algarvio? Valha-nos, mais uma vez, a geobiodiversidade.

A Espanha só serve para atravessar de noite, disse-me muitas vezes o Antunes, amigo de sempre. Bem verdade quando o objetivo é a Europa – e o que há para lá desta – em cima de uma mota.

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otros mundos

depois de quatro anos e meio e mais de quatro dezenas de textos, Otros Mundos merece alguma reflexão.

se “a escrita é uma arte, e não uma ciência”, serei um artista? Não me parece.

todavia, no mínimo, devo perguntar: comuniquei bem? tentei agradar aos leitores e partilhei alguma coisa que gostem e lhes seja útil?

dei-lhes uma escrita que os divirta, informe, persuada e expressei os meus pensamentos e convicções de forma clara?

dei-lhes o que eles queriam?

quero que Otros Mundos seja uma rede informal de partilha de saberes e informação útil, norteada pelo bom senso.

para isso, antes de publicar, pergunto:

  1. é fácil perceber qual é o tema?
  2. qual a importância e actualidade do tema como contributo para um Mundo melhor e mais justo?
  3. todos os parágrafos têm um propósito e uma sequência lógica?
  4. as principais ideias estão destacadas?
  5. é necessária mais informação, exemplos ou episódios?
  6. a informação está suficientemente clara?
  7. há ideias genéricas que necessitam de fundamentação?
  8. é preciso explicar algum termo técnico?
  9. há repetições desnecessárias?
  10. o tom é adequado e consistente?
  11. as frases são claras?
  12. há palavras e ideias vagas?
  13. há erros de gramática?
  14. há erros de pontuação?
  15. isto interessa a quem o vai ler?

tudo isto e algo mais sempre sem medo de assumir o que escrevo.

tento  evitar “aos costumes disse nada”;  não gosto nada de me esconder atrás das palavras ou de lugares comuns, o cinzentismo arrepia-me e causa-me náuseas.

agradeço muito a duas pessoas, sem elas não haveria otros mundos, ao Paulo Ribeiro e ao Carlos Pessoa.

assumidamente Otros Mundos quer, não só fazer parte da mudança, mas também fazer a mudança.

mágicos do turismo

Continuamos, por mais umas semanas, no tal tempo de férias. Por muito que custe a admitir o sucesso do turismo é apenas o imediato e esta é “apenas” a industria mais predadora do século XXI: o objetivo é viajar cada vez para mais longe em menos tempo com a intensidade máxima, dando uma nova expressão à máxima do “quanto mais melhor.” Depois da viagem em low cost, o turista no destino exige e consome sem limites. Este turismo é um produto do nosso tempo com uma fatura de valor incalculável, que inevitavelmente será cobrada um dia: “faz e leva o quiseres desde que pagues”, o quanto basta para o nosso contentamento. No fim, como sempre é, resta-nos uma certeza o custo disto vai ser enorme. Tudo o que estamos a vender como produto turístico (monumentos e pouco mais) todos os outros têm, muitas vezes melhor.

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despovoamento do campo

O conhecido jornalista José Gomes Ferreira diz em O Mirante que “a desertificação do mundo rural é uma tendência irreversível”. Refere-se ao despovoamento, claro, mas felizmente está equivocado. Na verdade, como bem diz, o abandono do campo não é um fenómeno português, mas global. Diz-se que cerca de 80 por cento dos europeus vivem em cidades, mas suponho que não são cidades como Santarém e Abrantes; são das outras, grandes, onde há muito deixou de haver estações do ano. Só que esta verdade de hoje é meramente circunstancial e um dia destes, num repente, a coisa vai mudar. É inevitável que mude.

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atitude

a atitude é uma pequena coisa que faz a grande diferença. A atitude é um dos nossos maiores recursos:

  • renovável;
  • infinito;
  • melhoria permanente e infinita.

No O Mirante:

https://www.dropbox.com/s/13axgkwu1b0c7o2/atitude%20-%20carlos%20cupeto%20-%2013-07-2017.pdf?dl=0

 

bola de berlim na praia

só um estúpido, muito estúpido, é contra a tecnologia digital; e só um parvo, muito parvo, considera uma app que numa praia chama o vendedor de bolas de berlim uma excelente inovação, muito útil para o cidadão comum.

ri palhaço, chora homem, sofre cão.

Vontade inadiável de comer uma bola de Berlim na praia? Há uma app para isso

este é um excelente exemplo que bem justifica o ponto onde estamos em termos civilizacionais: um Mundo onde há cada vez mais pobres que não têm água nem alimentos.

enquanto o nosso verão vai ser muito melhor nas praias, na China há uma nova profissão – o polinizador. Como exterminaram com os insectos polinizadores agora há o chinês polinizador, não sabemos se com alguma app, eventualmente de uma startup portuguesa, mas sim com um pincel a recolher pólen de uma flor para o depositar noutra.

http://consorcioapicola.cl/2012/10/10/china-disminucion-de-la-poblacion-de-abejas-obliga-agricultores-a-polinizar-a-mano/

http://www.fenatracoop.com.br/site/em-sichuan-china-homens-abelhas-polinizam-os-pomares-com-as-maos/

como se vê estamos mesmo no bom caminho.

“em que pensa o porco?

só em bolota.”

 

 

àgua como fogo

Às vezes, a curiosidade é maior que o bom senso e cometemos “loucuras”. Assim foi no feriado de 15, em que rumei a Cáceres pelo Tejo, onde a Confraria Ibérica do Tejo (CIT) organizou um seminário. Mais um a juntar a dezenas de outros que deste há muito vão acontecendo. Como cristão, interrogo-me se terá sido pecado dedicar um feriado santo a ir a Cáceres. Na verdade, os rios merecem isto e muito mais e, no fim, valeu a pena ir a Cáceres. A nova CIT pode ser uma boa oportunidade para cuidar do Tejo, mas aquilo que presenciei em Cáceres deixa-me muitas dúvidas: mais do mesmo, isto é, gastar dinheiro que contribui para a nossa pobreza. Bom, o certo é que em Cáceres o Tejo estava bem representado, o que infelizmente só por si não chega. Do mais curioso que se passou em Cáceres foi, na primeira mesa redonda do dia, ficar evidente que cada um dos presentes tinha uma ideia diferente do que se estava ali a passar. O ponto alto do ridículo aconteceu quando a representante do Governo português, Helena Freitas – mulher com peso, porque coordenadora da Unidade de Missão para a Valorização do Interior – se viu obrigada a intervir e a dizer aos organizadores o que estavam ali fazer.

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fogo, pior que dantes

Li o que escrevi em anos idos sobre fogos e torna-se incontornável voltar ao tema. Setembro de 2013: “o que se passou no Caramulo é demasiado grave para ficarmos pelo habitual (…) Num contexto só comparável a uma situação de guerra, a exigência técnica e o risco são demasiado elevados para bombeiros voluntários amadores. Neste combate, nesta frente, só podem estar profissionais altamente qualificados, preparados e equipados.” Há menos de um ano, em agosto de 2016, andei nas florestas de Pedrogão Grande e Figueiró dos Vinhos e neste mesmo jornal escrevi: “Andei, passo a passo, algumas dezenas de quilómetros na floresta do centro do país e a pergunta que constantemente me assolava era só uma: ‘como é possível isto não arder?’ No estado em que se encontra a floresta vai arder de certeza.” Ainda a este propósito escrevi em setembro de 2016 que a área ardida em Portugal é maior que a de toda a Europa: “Por cá o ‘negócio do fogo’ está mal equacionado, pois a grande fatia do investimento é feita num segmento da fileira não rentável, o apagar fogo. Imagine-se o resultado diferente se os mesmos recursos fossem investidos em limpeza, conservação e valorização da floresta.” Chegamos a 2017 e tudo pior que dantes. Um ano e uma comissão interministerial de sete ministros depois, o que mudou? Nada. Somos um país do terceiro mundo (bombeiros voluntários, gente que descansa a consciência com paletes de leite para os bombeiros e roupas para os desalojados…), com riscos, sistemas (comunicações, centro de comando…) e equipamentos (jipes, carros de combate, fardas…) do primeiro mundo.

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fogo 2017

2017, tudo como dantes. Um ano e uma comissão interministerial de sete ministros depois, o que mudou? Nada.

Somos um país de 3º mundo (bombeiros voluntários, gente que descansa a consciência com paletes de leite para os bombeiros e roupas para os desalojados…) com riscos, sistemas (comunicações, centro de comando…), equipamentos (jipes, carros de combate, fardas…) de 1º mundo.

A tragédia, naturalmente (como poderia ter sido diferente?),  abateu-se sobre o nosso campo. Como avaliar, mais uma vez, o que aconteceu? Aos factos associam-se os comentários e os fabulosos e sábios inventários infinitos de causas. O mais provável é que a principal causa esteja num computador central, algures em Lisboa, sem o qual a decisão não é tomada… Isto é, quem vive o local e conhece os bois pelos nomes, por exemplo: dois GNR, que cortam uma estrada de que o PC de Lisboa nunca ouviu falar, podem evitar meia centena de muito tristes e escandalosas mortes.

Se a dona do café sabia a GNR e os bombeiros locais não?

“Uns metros à frente, no café-restaurante Gil, Lurdes Henriques descreve o mesmo filme. “Muitos turistas até jantaram cá, mas depois entraram em pânico. Queriam ir para Lisboa, só falavam em Lisboa. A uns ainda lhes disse para irem para o lado da Lousã [local contrário à direcção das chamas], a outros, um casal com duas crianças, tanto lhes pedi para não irem. Ainda levaram uma garrafa de água”, lembra.” In: Rádio Renascença, 21 de junho, 8:20.

(http://rr.sapo.pt/noticia/86783/da_agua_ao_fogo_porque_nao_fechou_a_n236_1_a_estrada_da_morte?utm_medium=email&utm_source=newsletter)

No fim os cães ladram e o cortejo de vaidades com bonitas fardas e bons jipes com pirilampos estridentes vai passar e continuar intocável até à próxima.

João Miguel Tavares, no Público (20 de jun.), escreve: “apaziguamos a alma com donativos. Vemos o presidente da República desculpar toda a gente ainda antes de saber o que aconteceu. ”

Fica uma certeza e algumas incertezas, vai voltar a acontecer, não sabemos quando e onde; tudo o que é risco natural acontece nos países ricos e nos pobres. Tudo o resto é outra conversa.

Triste tempo este em que mais recursos, mais meios, mais quase tudo, significa menos, muito menos do essencial. Esta é, na verdade, a maior e mais grave das pobrezas, a incapacidade de fazer o que se deve.

a arder como dantes…:

https://www.dropbox.com/s/803uq8qkcjm85nw/a%20arder%20como%20dantes%20-%20carlos%20cupeto.pdf?dl=0

trabalho e emprego

Por estes dias, um colega, reitor numa universidade brasileira, veio visitar-nos. A dada altura comentou algo que todos sabemos mas que a maior parte das vezes fingimos não ser assim: “faltam empregos mas não falta trabalho.” Lá, no Brasil, como cá. Na verdade, incomodam-me muito as paisagens sociais e económicas que vemos à nossa volta. Pelos vistos, a questão é global. O problema é complexo e, como tal, não tem solução simples. Apesar desta realidade, há duas questões que me parecem essenciais para abordar tão complexo problema: a dicotomia direito-dever e a dimensão local da coisa que assume vários nomes, designadamente “suficiência local”.

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Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan