o que me conta a minha janela…

a minha janela

vivemos um novo “normal” com muitas incertezas e medos, porque não dizê-lo, que nos assolam diariamente, mas temos uma certeza: a minha escolha (compreensivelmente agora um pouco mais limitada) depende só e só de mim. O que escolhe depende só de si.

o que fazemos com o tempo que agora temos e que não tínhamos?

o que faz com o “confinamento domiciliário” é uma escolha sua; porque não fazer boas escolhas?

convite:

escrever um texto sobre o que lhe conta a sua janela: emoções, medos, ansiedade, saberes, paisagens, geografias, vizinhanças, expetativas, cores, vidas, luz, noite, dia, …

uma página A4, espaçamento 1,5, letra 12.

proponho que além da página de texto associe 1 ou 2 fotografias da sua janela.

também vou escrever o que me conta a minha janela e partilhar convosco.

cupeto@uevora.pt

espero pelas vossas partilhas (anónimas) até 14 de abril.


mudar de vida

Entre medos e dúvidas quase todos acreditam que depois da tempestade é possível, e aconselhável, ficar tudo na mesma. Parece-nos normal e natural que no centro histórico de Évora existam mais de 200 alojamentos locais para turistas? É aceitável que num só dia ocorram 225 mil voos? Já agora, uma última pergunta: para que nos interessa enterrar milhões e milhões na TAP? A conversa não vai por aí, hoje. Na verdade o que ouvimos, depois da pandemia, é voltar tudo ao mesmo. Quanto antes melhor. A equação que temos para resolver é complexa e exigiria decisões únicas e improváveis. É óbvio que isso, para já, não vai acontecer. Os donos da nossa vida, muitos a viver em Bruxelas, não querem. Vendemos a alma ao diabo e o diabo conhece-nos. Temos a vida na “nuvem” e temos andado todos muito descansados a viver no máximo. Tudo nos exige, mais produtividade e mais consumo, sem regras; crescimento. O deslumbramento pela globalização convém a muito poucos mas tolda a vista a quase todos. Agora mesmo, o teletrabalho, no meu caso dar aulas e acompanhar os alunos, virou uma loucura de pressão sobre todos, mais um “vírus” que contagia e estraga o que podia ser salutar. O que me resta? Acreditar e ter esperança que cada vez há mais pessoas que pensam pela sua cabeça e se vão inconformar com esta coisa.

“Quem pode impedir a primavera? Se as árvores se vão cobrir de flores. Quem? Se os sonhos maus do inverno dão lugar à primavera?” De um poema de Ruy Cinatti. A nossa condição de humanos exige-nos que sobrevivamos, mas,  com ética e valores.

globalização

vendemos a alma ao diabo e ele conhece-nos.

ri palhaço, chora homem, sofre cão

os guardiões da democracia alertam-nos para os perigos do estado de emergência. Pode estar em causa a “sagrada família”: direitos, liberdades e garantias.

fiquei apreensivo durante alguns dias até que descobri uma vacina que partilho com todos: DEVERES. Juntemos os deveres. Ficamos com uma mesa de quatro pés, mais estável que três, e podemos ficar democraticamente tranquilos.

deveres – direitos – liberdades – garantias

simplesmente mulher

A importância da mulher é cada vez mais relevante.

Ao contrário, a atual conversa sobre igualdade de género, quotas e outras coisas tais, são cada vez mais patetas. Qual é a mulher que se prese que necessita desta conversa? Não conheço nenhuma. O tipo de mulher a que me refiro, é como os homens que merecem respeito, “impõe-se” pelas suas qualidades e competência. Nenhuma destas mulheres necessita que a defendam na posição social, profissional, ou política, porque os tempos assim mandam. Assiste-me a convicção, porque ao longo da minha vida muitas, mas muitas mulheres o provaram, que o país só tem a ganhar se mais mulheres ocuparem as posições que devem, que lhes pertencem. O resto é mais um faz de conta para alimentar um mercado que não tem grandes resultados. Na verdade, nenhuma mulher merece isto. Há alguma coisa mais discriminatória do que uma quota?

Para terminar bem cabe-me evocar o melhor das grandes mulheres com que tive o privilégio de me cruzar. Para além serem pessoas apaixonadas pelo que fazem, têm um controlo de si verdadeiramente ímpar. Estas mulheres são simples e pragmáticas, possuem um grande sentido de humor, assumem riscos e são independentes. E finalmente, muito importante, felicidade é muito mais do que ter um bom automóvel. Admiro-vos muito e quero-vos sempre por perto, a bem da minha felicidade.

Évora – Arraiolos; Cascais – Oeiras, etc.

O concelho de Arraiolos não faz qualquer sentido. Obviamente que como este há muitos mais por esse país fora. Apenas mais alguns exemplos: Castelo de Vide,  Marvão e Portalegre deviam ser só um concelho; Estremoz, Borba e Vila Viçosa igual; Arronches, ali encostado a Elvas é uma aberração como Arraiolos. Cuba e Vidigueira; e o que dizer de Alvito? Antes de voltar a Arraiolos,  saiba-se que não é só por cá, Cascais e Oeiras é uma estupidez, por esse país fora há muitos, mas muitos exemplos estúpidos, verdadeiramente estúpidos porque não servem a ninguém nem a nada.

É assim porquê? Porque quando nascemos já assim era? E, para quê? Para que os pequeninos enormes poderes locais da partidocracia possam existir. Já se está a ver no que ia dar a regionalização. Qual é a principal consequência disto? Ineficácia na gestão do território e dos recursos disponíveis, que, consequentemente conduz a miserável pobreza.

Arraiolos tem tudo e não tem nada. Tem tudo porque tem patrimónios (arte, cultura, saberes, etc.), não tem nada porque lhe falta gente e economia, vida. Évora a 20 quilómetros está carregada de turistas, apesar de a maioria descer e subir a rua da Républica ou do Raimundo em 30 minutos. Arraiolos como um produto integrado com Évora (a que falta um verdadeiro castelo) terá um enorme sucesso. Um mine-bus gratuito, num vai-vem permanente  entre a cidade e a vila em menos de 30 minutos serve turistas e moradores. Serve também estudantes da Universidade que não têm alojamento em Évora. Arraiolos é o castelo, os tapetes, o museu, os pasteis de toucinho, etc. que Évora não tem. É a pequena vila/aldeia exemplar que em muitos países estaria atafulhada de gente. Mas há também uma vergonhosa ecopista que liga as duas terras. Esta excelente infraestrutura está subaproveitada e é ignorada por quem nos visita. Não precisamos de passar a fronteira, vejamos excelentes exemplos no Minho, Beiras ou Trás -os – Montes. Ciclovias bem promovidas, muito melhor infraestruturadas que se traduzem em produtos turísticos de grande valor e riqueza.

Não percebem ou não querem perceber?

ciganos

Quem me conhece há 50 anos sabe que sempre fui admirador da cultura cigana. Talvez pela irreverência e liberdade deles. Recentemente tive famílias ciganas como vizinhos. Confesso que, como os ciganos, tenho alguns gostos “excêntricos”; gosto de escolher a música que ouço e não gosto de lixo e porcaria. Vem isto a propósito de um relatório do Conselho da Europa que identifica Portugal como um país onde as comunidades ciganas continuam a ser discriminadas e a viver à margem da sociedade.

Era muito bom que estes especialistas europeus fossem mais longe e nos dissessem como é que se ultrapassa esta situação? O que falta fazer em Portugal para que os ciganos não se sintam marginalizados e discriminados? Por cá, os ciganos podem ir à escola, podem trabalhar, pagar e usufruir da segurança social. Têm todos estes direitos e muitos outros. Também podem ir ao cinema e ao futebol, é só chegar à bilheteira e comprar o bilhete. Talvez algumas famílias ciganas possam ir até Bruxelas e, na prática, os especialistas do Comité Consultivo da Convenção Quadro para a Proteção das Minorias Nacionais demonstrarem-nos como se faz. Este seria um dinheiro muito bem empregue, ao contrário de todos os milhões que se gastam em inserção e programas sociais do faz de conta. O resultado está à vista. Já ficava satisfeito se fosse muito bem definido e conhecido como é que as comunidades ciganas desejam ser inseridas para não se sentirem marginalizadas. Talvez Bruxelas saiba e nos queira dizer.  Já agora, poupem-nos por favor, à listagem de direitos, esses todos os conhecemos, passem directamente para os deveres.

Lisboa

Tão fácil. Junta-se um grupo de amigos, os que decidem a nossa vida, e Lisboa fica verde, nada menos que Capital Europeia. Quem fica horas nas filas da A2, A5 ou IC19 pensa que vive noutro planeta. Quem é escorraçado da cidade, cada vez mais desumanizada, para as terras “longínquas” dos arrabaldes, de costas para tudo o que vale a pena em Lisboa, não pode acreditar nesta coisa. Um lisboeta em Lisboa é um bem raro, a cidade, o que resta de Lisboa, é do turista e dos estudantes Erasmus. Pensa-se um pouco, “capital verde europeia”, do que estarão a falar? Quem viveu em Lisboa e volta lá de quando em vez sabe que esta ideia, cada dia que passa, é mais mentirosa. Quem sofre em Lisboa todos os dias fica incrédulo. Esta é a magia dos nossos dias. O presidente Fernando Medina, numa distração de verdade, diz que “acima de tudo, é uma convocatória de ação para o município, para o Estado…”, isto é, vamos começar agora, agora é que é. Uma das grandes ações é a “praia” de Lisboa. Daqui a dois anos, depois de estudos, Lisboa vai ter uma “praia”, isto é, uma piscina no Tejo. A capital europeia, e quiçá do mundo, que tem as melhores praias, lembrou-se de fazer uma “praia” no Tejo. Sim, as melhores praias da Europa estão na Caparica, em Sintra, Cascais, Oeste, Arrábida, Sesimbra e Tróia. Esta obra, que não vai fazer mais feliz nenhum lisboeta, é para aproximar as pessoas do rio e compara-se ao que se fez no rio Sena, em Paris, uma cidade no meio do continente. É mau e miserável de mais para ser verdade. É assim que os milhões dos elevadíssimos impostos que pagamos se estragam, faltando para o importante e essencial. É pensar mal, muito mal, e sobretudo para dentro de Lisboa, tudo o que de muito bom está à volta não conta,  “Lisboa no seu pior”. Por si, quando estiver parado na A2, ou de pé e desconfortável no comboio, pense um pouco pela sua cabeça. Deixe de ser indiferente e evolua, como apela o sítio oficial da coisa.

Borba, um ano depois

… um ano depois aos costumes disse nada. A aposta é sermos um país pobre e quando assim é estragamos recursos.

no jornal Público uma reflexão:

https://www.dropbox.com/s/1mzg6p8r4frln2d/Borba%20um%20ano%20depois%20-%20c%20cupeto%20-%20P%C3%BAblico%20-%209%20dez%202019.pdf?dl=0

desperdício

Se há uma só palavra que caracteriza o nosso tempo e modo de vida é, sem dúvida, desperdício.

Toda a outra conversa de solução tecnológica e/ou organizacional (tipo “economia circular”) para a catástrofe ambiental é totalmente inconsequente. Sejamos verdadeiros.

 É certo que é no desperdício que somos verdadeiramente eficazes. Mal usamos tudo o que tocamos: alimentos, energia, água e até o tempo. Vivíamos perto do local de trabalho, íamos almoçar a casa e agora é o que sabemos. Lembro-me de a minha mãe estar algumas vezes sem ferro de passar a roupa porque o aparelho tinha ido arranjar ao eletricista, que por acaso até vivia no piso de cima. Parece um mundo de ficção, mas não foi assim há tanto tempo. Entretanto, fazem-nos crer que os recursos são infinitos e gratuitos. Os limões chegam-nos do Chile e as reservas de petróleo são inesgotáveis, é mais fácil acreditar no Pai Natal.

Querem-nos vender tudo, as campanhas comerciais assumem uma dimensão sem paralelo e tudo o que não nos interessa passa para o estatuto inverso, os preços dizem-se irrecusáveis e compramos o que não precisamos. Somos alegremente enganados e sentimo-nos felizes. Os centros comerciais são atrativos únicos de grande satisfação para pequenos e graúdos.

Choca-me profundamente o nível de consciência de um coletivo que se deixa ir atrás de um folclore consumista, escandalosamente agressivo, e que se esquece do essencial.

Procura-se agora teoricamente atingir um objetivo que há muito pouco tempo se praticava nas nossas terras: “lixo zero”. Nada se desperdiçava, o porco e as galinhas ajudavam. Agora, para compensar, há uma associação, dita Zero, que supostamente nos defende das agressões ambientais. Zero a fazer muito lixo.

Como nada muda se não mudarmos nós, tudo isto se vai mantendo como se fosse possível e aceitável que uma minoria, muito minoria, delapide um bem comum como se nada fosse. Só falta saber por onde vai quebrar e quando?

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan