interior

O interior é aquela coisa a preto e branco, triste, envelhecida e pobre em oposição a outra, colorida, jovem, alegre e rica, o litoral.

Já tudo aconteceu a favor do interior: um Movimento pelo Interior (ilustres personalidades, desde ex-ministros a autarcas, empresários e professores, como se nenhum deles jamais tivesse a ver com decisões sobre a governança do país), uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, e agora, com o atual governo, um emaranhado de Ministérios e Secretarias de Estado que se sobrepõem e atropelam pela nobre causa. Deseja-se “diferenciar positivamente o interior”. Antes disto tudo, em sucessivos ciclos de governação, já houve dezenas de cangalhadas destas.  O resultado está à vista. Recordo que o anterior governo criou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, para que serviu?

Alguns factos: o interior tem tudo, está excelentemente infraestruturado; desde sempre, e cada vez mais, há famílias de estrangeiros que se instalaram no interior onde vivem ricas e felizes; emigraram 2,5 milhões de portugueses; trinta por cento da população do Luxemburgo são portugueses, este país tem um dos maiores PIB da Europa. Tão pouco nos faltou dinheiro para o interior, em variadíssimos e originais programas; o Eurodeputado Zorrinho e ex-Comissário Moedas sabem-no bem.

Sempre me interroguei sobre o que distingue um jovem casal de holandeses que há umas dezenas de anos se instalou no interior? São felizes e criam riqueza sobejante. Interrogo-me também sobre o que falta fazer ao inexcedível Armindo Jacinto, Presidente de Idanha -a – Nova, para ter sucesso na revitalização da sua terra, uma das mais despovoadas do país? Precisamente por iniciativa do autarca de Idanha, em dezembro de 2017, em Lisboa foi apresentada uma estratégia para o interior: O mundo rural e o desenvolvimento económico e social de Portugal, que o inevitável Prof. Augusto Mateus, coordenador da equipa autora, apresentou com o habitual entusiasmo. Para além do “mundo rural, porque sim”, digam lá que não soa bem, como sempre, nada mais. Tudo, mas tudo, sobretudo a realidade e os factos, conduzem-me cada vez mais a uma resposta: a cabeça das pessoas, isto é, a mentalidade, o nível de consciência. A isto chama-se atitude; os portugueses valorizam os bons automóveis e as luzes dos shoppings. A diferença é a atitude das pessoas, moldadas durante muitos anos pela educação e cultura. E isto, meus amigos, não se altera com Movimentos e Programas. Será que temos de continuar pobres?


Borba um ano depois

o país que somos. Necessitamos de melhor Estado e melhores empresários.

https://www.publico.pt/2019/12/09/sociedade/opiniao/borba-ano-1896143

a neve da Greta

A Greta chegou à doca de Santos e ali perto, em Algés, há neve, gelo e tudo o mais a que um povo pobre tem direito. Greta trouxe neve. Em Algés, como em todo o país, o Natal  é a oportunidade para uma grande, cara e escandalosa parvoíce: pistas de gelo, arte em gelo e até neve. Enquanto isto, uma gaiata de 16 anos vem cá dizer-nos o que temos de fazer e é recebida com pompa e circunstância, quase com honras de Estado. Não há santa terrinha que não tenha uma pista de gelo. Será que as infinitas pistas de gelo, uma verdadeira aberração cultural e ambiental, não incomodam os PAN da nossa vida? Já alguém questionou esta moda do Natal como se estivéssemos na Suécia? Haja paciência. Acontece que, “ao lado”, massacram-nos com palermices mentirosas como grandes arautos e salvadores da Terra. Alguém, para além do nosso ministro do Ambiente, “que tudo faz, sem nada fazer”, já fez alguma coisa significativa e que valha a pena para a grande causa da emergência climática? Já repararam que apesar das sucessivas cimeiras, relatórios e discursos inflamados, os indicadores são cada vez piores? Querem que os levemos a sério? Querem que fiquemos entusiasmados com os discursos do Guterres? A retórica é irrepreensível, e o resto, a ação? Engº Guterres, pelo menos, diga-nos: como se faz? Quem, que setor, dá o primeiro passo? Será que aceitam falar seriamente no turismo depredador assente no low cost e no consumo máximo? Não há transição possível, só mesmo rotura, ou vamos bater no muro de frente e aí, sim, a coisa muda. Se os dinossauros nos pudessem contar como foi… Já agora, com que dinheiro são pagas as pistas de gelo e qual o custo ambiental de uma cretinice destas? Será que nenhum senhor deputado se interessa por esta matéria?

pobreza miserável

Vieram a público os últimos dados da pobreza em Portugal, 2,2 milhões de portugueses são excluídos porque são pobres. Este número é assustador e muito incomodativo, tira-me o sono. Um belo e orgulhoso resultado de 45 anos de socialismo em vários tons. Escrevo 45 anos de socialismo porque é tempo de deixar em paz os 48 anos de ditadura fascista e começar a pensar onde estamos e como aqui chegámos. Obviamente que na análise de tão monstruosa realidade há todo um conjunto de dados e interpretações que deixa António Costa e a enorme família socialista tranquilos e satisfeitos com o seu trabalho. Apesar desta miséria também se soube esta semana que a subscrição de seguros de saúde disparou em Portugal sobretudo nas classes mais baixas. Daqui se conclui que os pobres deste país duvidam muito, isto é, sentem na pele, que a saúde que o Estado lhes “oferece” não satisfaz. E aqui estamos alegres, contentes e distraídos com as palermices da Joacine que em poucas semanas tirou o palco ao PAN. Caros portugueses, temos a certeza que o mesmo caminho nos vai conduzir aos mesmos miseráveis lugares. Naturalmente que os autoproclamados arautos da democracia, aqueles que nos dizem o que é “bom e mau”, gritam cada vez mais alto o “enorme caminho percorrido desde 74”. Era melhor que assim não fosse, este tipo de gritaria, argumentos, só dão razão a quem pensa diferente. À cabeça está sempre a “liberdade”. Liberdade? Será que estes pobres têm a liberdade para ligar o aquecimento e não terem frio no inverno? Abaixo a aposta estratégica na pobreza, já! Será que é possível experimentar novos caminhos para ter melhores resultados? Qual é o risco? Quarenta e cinco anos depois ainda acreditamos que a culpa é do Salazar? Ainda dá para acreditar que quem nos conduziu até aqui nos vai tirar desta situação? É credível esta miséria ser resultado de alguns “papões” que espreitam a oportunidade de nos fazer mal e não das políticas seguidas?

O cenário é negro mas sabemos que mesmo por detrás de espessas nuvens sempre o sol brilha, tenhamos esperança, podemos mudar para melhor.

saúde e justiça

A minha mãe foi enfermeira há quase 70 anos, no primeiro curso da Escola de Enfermagem de Évora. Brinquei nos corredores desta casa e por isso muito a estimo e, obviamente, considero os seus profissionais. Escrevo em jornais e revistas há 25 anos e totalizo mais de 500 artigos publicados. Fui diretor da principal revista portuguesa de ambiente durante cerca de 10 anos e tenho a Carteira de Jornalista há quase 20 anos. Nunca escrevi nada que fosse objeto de qualquer tipo de queixa, até que, em dezembro de 2017, quase há dois anos, um texto no Diário do Sul onde comecei por expressar que não era opinião mas sim o relato de fatos, seguramente verdadeiros. “Hospital de Évora, um horror” foi o título desse texto. Por tudo aquilo que todos os dias, lemos, ouvimos e vemos acerca da saúde em Portugal o caso que relatei é apenas mais um. Na sequência, dois ou três dias depois, recebi uma carta da Administração do Hospital a ameaçar-me de fazer queixa junto do Ministério Público. Uns bons meses despois quando fui chamado a apresentar-me no DIAP, não fazia a mínima ideia de qual a causa. Fui tratado como um bandido pela funcionária que não quis acreditar que eu não sabia o que estava ali a fazer e lhe custou a aceitar que eu não fosse acompanhado de um advogado. Um advogado pago por mim, os do Hospital, são pagos por nós todos. Marcada uma nova data lá voltei com o advogado e soube o que estava ali a fazer. Fui inquirido e o processo foi arquivado. A Administração do Hospital não terá ficado satisfeita. Deduziu acusação particular.  Entretém-se dar trabalho aos juristas que nós pagamos. Cumpridos os procedimentos jurídicos adequados aguardo, como um eventual criminoso,  na condição de arguido,  quase meio ano depois da data marcada para conhecer uma decisão do DIAP de Évora.  É este o Estado que temos e que tão caro nos custa.

pedreiras seguras…

…com sinais e arame (vedações “tipo gado”) resolve-se o problema do risco nas pedreiras. Alguém se lembra de alguma pessoa, cidadão ou operário, ter caído numa pedreira? É muito provável que tenha acontecido mas ninguém se lembra. O Ministério do Ambiente diz-se satisfeito com o trabalho feito nas pedreiras ao longo deste ano. “A situação de risco é muito menor do que era há um ano”, diz Matos Fernandes; com arame e sinais, digo eu. “Não há memória de uma dinâmica destas em Portugal, e valeu mesmo a pena a nossa determinação” (Matos Fernandes), o consumo de tinta e arame em Portugal disparou.

fotografia do Público

e se abríssemos os olhos?

lítio & Greta

como tudo o resto (petróleo, ouro, etc.) em matéria de recursos geológicos, que devem a sua localização exclusivamente a factores geológicos, o país “não quer nem saber”. Qualquer “povo” tem a câmara da TV à frente e diz os disparates que lhe aprouver com o mesmo valor de quem estuda e trabalha a coisa. O Secretário de Estado do brinco tem alguma razão na substância mas não tem nada ver com o assunto, apenas segue a aplicação da lei e os pareceres da Administração competente. Sabe bem a cartilha do chefe Costa; assim não se compreende para que existe? António Barreto escreveu: “As esquerdas, auto-sufcientes, exauriram o Estado competente, técnico e inteligente, para o transformar em agente político e já agora em sua coutada. As direitas, cúpidas, esvaziaram o Estado sabedor, capaz e independente, para entregar poderes e competências aos negócios e aos privados. O Estado, hoje, é alfobre de negócios, tapada dos partidos, autoritário como os ignorantes, convencido como os déspotas! E ao serviço da política mais barata, a dos interesses.”

era só mesmo o que faltava, Greta vem ao Parlamento dizer-nos o que devemos fazer. Aproveitem e perguntem-lhe sobre o lítio.

web summit

Paddy Cosgrave afirmou hoje que este pequeno país é um “país startup”. Fiquei entusiasmado; enquanto isto a nossa miserável pobreza, leia-se produtividade, necessita de 2,5 vezes do território do país para gerar a nossa pobre riqueza, é mau demais.

Também hoje a cidade de Nova Deli está fechada porque a qualidade do ar é venenosa, irrespirável. Estou certo que em Lisboa vai surgir uma app que resolverá o problema. E um pingo de vergonha, não lhes ficaria bem?

no Público dois dias depois:

https://www.dropbox.com/home?preview=Emerg%C3%AAncia+Clim%C3%A1tica+-+Publico+Lisboa-20191106-p%C3%A1ginas-1%2C28-29+(1).pdf

desgoverno

A maior de todas as grandes desgraças nacionais é o desordenamento do território. Ninguém tenha dúvidas. Esta realidade encarregou-se de nos fazer pobres, de desperdiçar recursos e de gastar fortunas a tentar remediar a coisa.  Colocam loteamentos (pessoas a viver) ao lado dos porcos.  Constrói-se em leitos de cheia e em bom solo agrícola. Ignoram-se recursos geológicos, veja-se a Zona dos Mármores. A partir daí toda a gente ralha e todos têm razão. Talvez por isso os grandes desafios associados ao território estejam dispersos por vários Ministérios e Secretarias de Estado no novo enorme Governo. Estou-me nas tintas para isso, é mais caro um Governo grande que um pequeno, mas não é por aí. O que nos deve interessar é a eficácia do Governo e os resultados alcançados. Falam-nos em eficiência energética, descarbonização, luta contra as alterações climáticas, aposta nos transportes públicos, economia circular, ciclovias, etc., etc e depois encalhamos num país miseravelmente produtivo que necessita de 2,5 vezes o seu território para gerar a nossa pobre riqueza, é mau demais. O resto é conversa fiada do bem disposto Ministro Matos Fernandes.  Temos na nossa terra condições, como poucos, para solucionar grande parte do “enorme problema” a que a humanidade chegou: temos solo e água, isto é, território de baixa densidade, pronto a produzir os alimentos que nos faltam para sermos suficientes. Na verdade temos condições para um verdadeiro up local em detrimento do up global que tanto tem agradado a uma ínfima minoria. Num planeta sobrelotado, não é difícil povoar o interior como desejarmos, enquanto é tempo.  Apesar de questões globais, como as alterações climáticas, temos algumas condições ímpares para um Alentejo bem melhor para todos. A grande questão é: os nossos governantes não compreendem isto ou não querem compreender?

cimeira de NY

ouvi a intervenção do nosso conterrâneo Guterres, brilhante.
honesto ao ponto de confessar que a sua geração falhou…, nós bem o sabemos.
segue-se depois o apontar de tudo o que temos de fazer; quem diria melhor?
falta só dizer como se faz?
sobre isso nem uma palavra. Vai falhar outra vez.
o Prof Marcelo foi na mesma linha e todos os outros assim farão.
não há transição possível, vamos bater no muro de frente e aí sim a coisa muda… se os dinossauros nos pudessem contar como foi…
as lágrimas da gaiata sueca não acrescentam nada, ela disse-o, devia estar na escola, como todos os outros meninos que enchem as avenidas dos países ricos com cartazes coloridos; Guterres, Marcelo, eu e você sabemos o que há a fazer mas estamos bem, até ver, e não fazemos.
entretanto viajamos para onde nos apetece por meia dúzia e Euros e vamos trocando de automóvel… aos costumes disse nada!
haja paciência.

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan