política

13 de maio é 13 de maio.
a política voltou em boa hora.
os grandes estadistas que nos governam afinal enganam-se uns aos outros;
com o dinheiro dos nossos impostos.

abril, sempre

Aquando do estado de emergência fiquei surpreendido por muitos sentirem que  poderia estar em causa a “sagrada família” da democracia de abril: direitos, liberdades e garantias.  Uma ameaça à democracia gritaram, considerei um despropósito. Todavia, sou agora obrigado a reconhecer que eles tinham razão. Os Órgãos de Soberania que nos impuseram e confinaram no Estado de Emergência ameaçam e põem em risco a democracia. Se assim não fosse haveria necessidade de agora comemorar abril na Assembleia da República? Uma iniciativa ao arrepio de tudo o que nos foram contando, contra tudo e todos. Todas as contraindicações, que me abstenho de enumerar, são tantas, estão vinculadas à festa programada e anunciada. Revolta-me não ter a liberdade de comemorar como entendo com os meus amigos. Vislumbro, apenas, duas razões que justificam tamanho absurdo. Pesa-lhes a consciência pelo confinamento antidemocrático a que nos submeteram e, assim, com esta “festinha” dão-nos uma espécie de compensação. Ou, pior ainda, os Órgãos de Soberania, sabem que o descontentamento do povo é tanto (corrupção, decadência dos serviços públicos, pobreza, etc.) que ao fim de 46 anos de democracia sentem a necessidade incontornável de assinalar a data, não vá a malta esquecer-se. Seja como for muito mal vai a coisa. Vamos lá explicar, porque razão, por esse país fora o povo (quem mais ordena) não poderá fazer as festas que muito bem entenda?

Talvez fosse bom, e uma salvaguarda da democracia, o povo começar a pensar pela sua própria cabeça.

Juntos venceremos e a reação não passará.

e agora?

Neste mar de dúvida, medo e incerteza devemos apostar no mesmo caminho que nos trouxe até aqui?

Toda a retórica diz-nos que devemos retomar quanto mais depressa melhor. Retomar, é mais do mesmo: 225 mil voos num só dia. Milhões de pessoas em trânsito numa vida, que está na “nuvem”, sem custos, low cost. Como se a vida fosse digital. Vai-se a um supermercado e compra-se, em qualquer altura do ano, um frasco enorme de pimentos assados (que a nada sabem) por menos de 2€. Este valor não paga o vidro do frasco, o rótulo, a tampa de metal. Vale a pena pensar em todos os outros valores e o que pagamos por eles?

E agora?

Obviamente que as centenas de milhar de camas dos hotéis espalhados pelo país não podem ficar vazias de um dia para ou outro. A transição, quando estivermos dispostos a fazê-la, ou formos obrigados, não será fácil e levará anos. Mais uma razão para começar já. O up global tem que dar lugar ao up local; mesmo que o não queiramos. Portugal tem de ter a sua própria agenda. Temos camas a mais e gente a menos: fácil de resolver, quando o problema da Terra é gente a mais. Uma equação muito fácil. Estamos na hora de uma grande reflexão pessoal e coletiva. Desde logo temos de voltar a um tempo que tenha “tempo” para as estações do ano, tempo para viver.

É tempo dos valores e da ética, de aprender com os erros e ter a coragem de mudar, mesmo que seja ao revés de muitos dos outros. A aposta nos nossos próprios recursos. Devemos apostar num turismo de alto valor, porque temos um capital natural único e muito geobiodiverso, um caminho de longo curso. Quase o oposto das “carradas de turistas depredadores” que nos invadiram. O nosso sonho tem que contar, essencialmente, com o que temos à porta de casa, o up local. Temos de vencer a ignorância e a falta de cultura e empreender uma revolução. Enquanto tratamos das emergências do momento, este tempo tem de servir para desenhar o futuro que queremos.

Ou queremos que fique tudo na mesma?

eutanásia, referendo

80% das respostas erradas nos exames na universidade devem-se aos estudantes não saberem interpretar a pergunta.
diga-se, também, que muitos, mas muitos, professores não sabe escrever. 
como vou perguntar um assunto tão complexo ao povo de onde emana esta classe universitária?

Évora – Arraiolos; Cascais – Oeiras, etc.

O concelho de Arraiolos não faz qualquer sentido. Obviamente que como este há muitos mais por esse país fora. Apenas mais alguns exemplos: Castelo de Vide,  Marvão e Portalegre deviam ser só um concelho; Estremoz, Borba e Vila Viçosa igual; Arronches, ali encostado a Elvas é uma aberração como Arraiolos. Cuba e Vidigueira; e o que dizer de Alvito? Antes de voltar a Arraiolos,  saiba-se que não é só por cá, Cascais e Oeiras é uma estupidez, por esse país fora há muitos, mas muitos exemplos estúpidos, verdadeiramente estúpidos porque não servem a ninguém nem a nada.

É assim porquê? Porque quando nascemos já assim era? E, para quê? Para que os pequeninos enormes poderes locais da partidocracia possam existir. Já se está a ver no que ia dar a regionalização. Qual é a principal consequência disto? Ineficácia na gestão do território e dos recursos disponíveis, que, consequentemente conduz a miserável pobreza.

Arraiolos tem tudo e não tem nada. Tem tudo porque tem patrimónios (arte, cultura, saberes, etc.), não tem nada porque lhe falta gente e economia, vida. Évora a 20 quilómetros está carregada de turistas, apesar de a maioria descer e subir a rua da Républica ou do Raimundo em 30 minutos. Arraiolos como um produto integrado com Évora (a que falta um verdadeiro castelo) terá um enorme sucesso. Um mine-bus gratuito, num vai-vem permanente  entre a cidade e a vila em menos de 30 minutos serve turistas e moradores. Serve também estudantes da Universidade que não têm alojamento em Évora. Arraiolos é o castelo, os tapetes, o museu, os pasteis de toucinho, etc. que Évora não tem. É a pequena vila/aldeia exemplar que em muitos países estaria atafulhada de gente. Mas há também uma vergonhosa ecopista que liga as duas terras. Esta excelente infraestrutura está subaproveitada e é ignorada por quem nos visita. Não precisamos de passar a fronteira, vejamos excelentes exemplos no Minho, Beiras ou Trás -os – Montes. Ciclovias bem promovidas, muito melhor infraestruturadas que se traduzem em produtos turísticos de grande valor e riqueza.

Não percebem ou não querem perceber?

Lisboa

Tão fácil. Junta-se um grupo de amigos, os que decidem a nossa vida, e Lisboa fica verde, nada menos que Capital Europeia. Quem fica horas nas filas da A2, A5 ou IC19 pensa que vive noutro planeta. Quem é escorraçado da cidade, cada vez mais desumanizada, para as terras “longínquas” dos arrabaldes, de costas para tudo o que vale a pena em Lisboa, não pode acreditar nesta coisa. Um lisboeta em Lisboa é um bem raro, a cidade, o que resta de Lisboa, é do turista e dos estudantes Erasmus. Pensa-se um pouco, “capital verde europeia”, do que estarão a falar? Quem viveu em Lisboa e volta lá de quando em vez sabe que esta ideia, cada dia que passa, é mais mentirosa. Quem sofre em Lisboa todos os dias fica incrédulo. Esta é a magia dos nossos dias. O presidente Fernando Medina, numa distração de verdade, diz que “acima de tudo, é uma convocatória de ação para o município, para o Estado…”, isto é, vamos começar agora, agora é que é. Uma das grandes ações é a “praia” de Lisboa. Daqui a dois anos, depois de estudos, Lisboa vai ter uma “praia”, isto é, uma piscina no Tejo. A capital europeia, e quiçá do mundo, que tem as melhores praias, lembrou-se de fazer uma “praia” no Tejo. Sim, as melhores praias da Europa estão na Caparica, em Sintra, Cascais, Oeste, Arrábida, Sesimbra e Tróia. Esta obra, que não vai fazer mais feliz nenhum lisboeta, é para aproximar as pessoas do rio e compara-se ao que se fez no rio Sena, em Paris, uma cidade no meio do continente. É mau e miserável de mais para ser verdade. É assim que os milhões dos elevadíssimos impostos que pagamos se estragam, faltando para o importante e essencial. É pensar mal, muito mal, e sobretudo para dentro de Lisboa, tudo o que de muito bom está à volta não conta,  “Lisboa no seu pior”. Por si, quando estiver parado na A2, ou de pé e desconfortável no comboio, pense um pouco pela sua cabeça. Deixe de ser indiferente e evolua, como apela o sítio oficial da coisa.

Borba, um ano depois

… um ano depois aos costumes disse nada. A aposta é sermos um país pobre e quando assim é estragamos recursos.

no jornal Público uma reflexão:

https://www.dropbox.com/s/1mzg6p8r4frln2d/Borba%20um%20ano%20depois%20-%20c%20cupeto%20-%20P%C3%BAblico%20-%209%20dez%202019.pdf?dl=0

desperdício

Se há uma só palavra que caracteriza o nosso tempo e modo de vida é, sem dúvida, desperdício.

Toda a outra conversa de solução tecnológica e/ou organizacional (tipo “economia circular”) para a catástrofe ambiental é totalmente inconsequente. Sejamos verdadeiros.

 É certo que é no desperdício que somos verdadeiramente eficazes. Mal usamos tudo o que tocamos: alimentos, energia, água e até o tempo. Vivíamos perto do local de trabalho, íamos almoçar a casa e agora é o que sabemos. Lembro-me de a minha mãe estar algumas vezes sem ferro de passar a roupa porque o aparelho tinha ido arranjar ao eletricista, que por acaso até vivia no piso de cima. Parece um mundo de ficção, mas não foi assim há tanto tempo. Entretanto, fazem-nos crer que os recursos são infinitos e gratuitos. Os limões chegam-nos do Chile e as reservas de petróleo são inesgotáveis, é mais fácil acreditar no Pai Natal.

Querem-nos vender tudo, as campanhas comerciais assumem uma dimensão sem paralelo e tudo o que não nos interessa passa para o estatuto inverso, os preços dizem-se irrecusáveis e compramos o que não precisamos. Somos alegremente enganados e sentimo-nos felizes. Os centros comerciais são atrativos únicos de grande satisfação para pequenos e graúdos.

Choca-me profundamente o nível de consciência de um coletivo que se deixa ir atrás de um folclore consumista, escandalosamente agressivo, e que se esquece do essencial.

Procura-se agora teoricamente atingir um objetivo que há muito pouco tempo se praticava nas nossas terras: “lixo zero”. Nada se desperdiçava, o porco e as galinhas ajudavam. Agora, para compensar, há uma associação, dita Zero, que supostamente nos defende das agressões ambientais. Zero a fazer muito lixo.

Como nada muda se não mudarmos nós, tudo isto se vai mantendo como se fosse possível e aceitável que uma minoria, muito minoria, delapide um bem comum como se nada fosse. Só falta saber por onde vai quebrar e quando?

descentralização-regionalização

Há muitos, muitos anos, fui um fervoroso entusiasta da regionalização, tive como exemplo, muito precocemente, a Extremadura, o exemplo das coisas boas. Os anos trouxeram-me a realidade lapidar e quando votei foi um convicto “não”. O tempo deu-nos razão, para estragar dinheiro já chega o Terreiro do Paço. O país é tão pequeno, as novas tecnologias fizeram-no ainda mais pequeno, que a questão de proximidade não pega. E mais, a qualidade da decisão não depende da proximidade. Se o Alentejo não tem peso político em Lisboa para conseguir os meios, os Euros, que supostamente necessita como o vai conseguir num modelo mais descentralizado ou de regiões? Sim porque se trata só disso, “mais dinheiro”, vindo não se sabe de onde. Vamos votar a Comissão de Coordenação e tudo fica resolvido? Como se consegue o passo de mágica de conseguir mais dinheiro? Será que temos políticos de qualidade suficientes para nos governarem localmente?  Se queremos falar seriamente da coisa temos que começar por questionar o concelho de Arraiolos. A existência do concelho de Arraiolos faz sentido? O absurdo de Arronches, ali ao lado de Elvas, serve para quê? Estragar dinheiro. E como estes tantos outros. Se queremos mais meios, mais racionalidade, mais riqueza temos que ter coragem e fazer por isso. Ninguém o vem fazer por nós e nos vem dar o que seja para resolvermos o despovoamento e pobreza que nos caracteriza como região. Évora-Arraiolos é o excelente exemplo que me vai servir para uma verdadeira proposta de “up local”.

interior

O interior é aquela coisa a preto e branco, triste, envelhecida e pobre em oposição a outra, colorida, jovem, alegre e rica, o litoral.

Já tudo aconteceu a favor do interior: um Movimento pelo Interior (ilustres personalidades, desde ex-ministros a autarcas, empresários e professores, como se nenhum deles jamais tivesse a ver com decisões sobre a governança do país), uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, e agora, com o atual governo, um emaranhado de Ministérios e Secretarias de Estado que se sobrepõem e atropelam pela nobre causa. Deseja-se “diferenciar positivamente o interior”. Antes disto tudo, em sucessivos ciclos de governação, já houve dezenas de cangalhadas destas.  O resultado está à vista. Recordo que o anterior governo criou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, para que serviu?

Alguns factos: o interior tem tudo, está excelentemente infraestruturado; desde sempre, e cada vez mais, há famílias de estrangeiros que se instalaram no interior onde vivem ricas e felizes; emigraram 2,5 milhões de portugueses; trinta por cento da população do Luxemburgo são portugueses, este país tem um dos maiores PIB da Europa. Tão pouco nos faltou dinheiro para o interior, em variadíssimos e originais programas; o Eurodeputado Zorrinho e ex-Comissário Moedas sabem-no bem.

Sempre me interroguei sobre o que distingue um jovem casal de holandeses que há umas dezenas de anos se instalou no interior? São felizes e criam riqueza sobejante. Interrogo-me também sobre o que falta fazer ao inexcedível Armindo Jacinto, Presidente de Idanha -a – Nova, para ter sucesso na revitalização da sua terra, uma das mais despovoadas do país? Precisamente por iniciativa do autarca de Idanha, em dezembro de 2017, em Lisboa foi apresentada uma estratégia para o interior: O mundo rural e o desenvolvimento económico e social de Portugal, que o inevitável Prof. Augusto Mateus, coordenador da equipa autora, apresentou com o habitual entusiasmo. Para além do “mundo rural, porque sim”, digam lá que não soa bem, como sempre, nada mais. Tudo, mas tudo, sobretudo a realidade e os factos, conduzem-me cada vez mais a uma resposta: a cabeça das pessoas, isto é, a mentalidade, o nível de consciência. A isto chama-se atitude; os portugueses valorizam os bons automóveis e as luzes dos shoppings. A diferença é a atitude das pessoas, moldadas durante muitos anos pela educação e cultura. E isto, meus amigos, não se altera com Movimentos e Programas. Será que temos de continuar pobres?


Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan