março CC

programa da Conversas de Cesta em março; uma rede informal de partilha de saberes úteis:

viagem noturna

“a luz castiga e quase que nos impõe uma ditadura”.

viagem noturna foi o tema da Conversas de Cesta com António Paiva.

uma caminhada na Sintra noturna, onde os sentidos “esquecidos” se avivam. “pés na Terra, cabeça no Céu”.

eutanásia, referendo

80% das respostas erradas nos exames na universidade devem-se aos estudantes não saberem interpretar a pergunta.
diga-se, também, que muitos, mas muitos, professores não sabe escrever. 
como vou perguntar um assunto tão complexo ao povo de onde emana esta classe universitária?

Tejo a pé – 23 fev. Magoito, Lomba do Pianos, Praia da Samarra

A onde te levam os teus passos? Andar, enquanto prática básica humana, é um ato físico, mas também, e não menos, cultural. Não há melhor forma de conhecer uma região, uma cidade, um povo. Andar tem um enorme eco espiritual, cultural e político. Todos no Tejo a pé sentimos isto, se andarmos o mundo, a terra onde vivemos, é melhor. Andar liberta-nos da geografia como nenhuma outra forma de deslocação. Andar é um ato de união, é isso que fazemos há mais de 10 anos, muito informalmente, sem caprichos, no Tejo a pé. Andamos porque sim. Andamos devagar, pouco, ao ritmo de todos, mas andamos. Andar é ver o mundo à nossa volta como nos esquecemos de o fazer, é redescobrir terras conhecidas, para, finalmente nos conhecermos melhor. Andar é, provavelmente, o verbo com mais significado, incluindo viver. Mesmo o caminho de ida e volta nunca são iguais e isso ensina-nos muito. “Caminhar é uma das belas artes” (Thomas De Quincey, Londres, 1802), venha daí connosco, em fevereiro dia 23, na boa terra de Sintra, com passos na zona do Magoito-Praia da Samarra.

Programa completo:

https://www.dropbox.com/s/bt5rk29649danh4/tejo%20a%20p%C3%A9%20em%20fevereiro.pdf?dl=0

Évora – Arraiolos; Cascais – Oeiras, etc.

O concelho de Arraiolos não faz qualquer sentido. Obviamente que como este há muitos mais por esse país fora. Apenas mais alguns exemplos: Castelo de Vide,  Marvão e Portalegre deviam ser só um concelho; Estremoz, Borba e Vila Viçosa igual; Arronches, ali encostado a Elvas é uma aberração como Arraiolos. Cuba e Vidigueira; e o que dizer de Alvito? Antes de voltar a Arraiolos,  saiba-se que não é só por cá, Cascais e Oeiras é uma estupidez, por esse país fora há muitos, mas muitos exemplos estúpidos, verdadeiramente estúpidos porque não servem a ninguém nem a nada.

É assim porquê? Porque quando nascemos já assim era? E, para quê? Para que os pequeninos enormes poderes locais da partidocracia possam existir. Já se está a ver no que ia dar a regionalização. Qual é a principal consequência disto? Ineficácia na gestão do território e dos recursos disponíveis, que, consequentemente conduz a miserável pobreza.

Arraiolos tem tudo e não tem nada. Tem tudo porque tem patrimónios (arte, cultura, saberes, etc.), não tem nada porque lhe falta gente e economia, vida. Évora a 20 quilómetros está carregada de turistas, apesar de a maioria descer e subir a rua da Républica ou do Raimundo em 30 minutos. Arraiolos como um produto integrado com Évora (a que falta um verdadeiro castelo) terá um enorme sucesso. Um mine-bus gratuito, num vai-vem permanente  entre a cidade e a vila em menos de 30 minutos serve turistas e moradores. Serve também estudantes da Universidade que não têm alojamento em Évora. Arraiolos é o castelo, os tapetes, o museu, os pasteis de toucinho, etc. que Évora não tem. É a pequena vila/aldeia exemplar que em muitos países estaria atafulhada de gente. Mas há também uma vergonhosa ecopista que liga as duas terras. Esta excelente infraestrutura está subaproveitada e é ignorada por quem nos visita. Não precisamos de passar a fronteira, vejamos excelentes exemplos no Minho, Beiras ou Trás -os – Montes. Ciclovias bem promovidas, muito melhor infraestruturadas que se traduzem em produtos turísticos de grande valor e riqueza.

Não percebem ou não querem perceber?

ciganos

Quem me conhece há 50 anos sabe que sempre fui admirador da cultura cigana. Talvez pela irreverência e liberdade deles. Recentemente tive famílias ciganas como vizinhos. Confesso que, como os ciganos, tenho alguns gostos “excêntricos”; gosto de escolher a música que ouço e não gosto de lixo e porcaria. Vem isto a propósito de um relatório do Conselho da Europa que identifica Portugal como um país onde as comunidades ciganas continuam a ser discriminadas e a viver à margem da sociedade.

Era muito bom que estes especialistas europeus fossem mais longe e nos dissessem como é que se ultrapassa esta situação? O que falta fazer em Portugal para que os ciganos não se sintam marginalizados e discriminados? Por cá, os ciganos podem ir à escola, podem trabalhar, pagar e usufruir da segurança social. Têm todos estes direitos e muitos outros. Também podem ir ao cinema e ao futebol, é só chegar à bilheteira e comprar o bilhete. Talvez algumas famílias ciganas possam ir até Bruxelas e, na prática, os especialistas do Comité Consultivo da Convenção Quadro para a Proteção das Minorias Nacionais demonstrarem-nos como se faz. Este seria um dinheiro muito bem empregue, ao contrário de todos os milhões que se gastam em inserção e programas sociais do faz de conta. O resultado está à vista. Já ficava satisfeito se fosse muito bem definido e conhecido como é que as comunidades ciganas desejam ser inseridas para não se sentirem marginalizadas. Talvez Bruxelas saiba e nos queira dizer.  Já agora, poupem-nos por favor, à listagem de direitos, esses todos os conhecemos, passem directamente para os deveres.

Conversas de Cesta e Nova SBE

a Conversas de Cesta, a tertúlia da Linha, todos os segundos e quartos domingos às 18h, na Nova SEB, Campus de Carcavelos.

A comunidade local e a universidade num espaço de Conversas.


Malagueira (Siza Vieira)

Um dia um turista chegou à estação rodoviária e virou à esquerda; passados poucos minutos estava no Bairro da Malagueira. Algum tempo depois, na visita ao bairro, em conversa com um morador soube, com admiração, que encostada à Malagueira havia uma cidade património da UNESCO. Esta é a verdadeira Malagueira que poucos moradores e eborenses conhecem e vivem.

O dia 21 janeiro assinalou a formalização da Associação de Moradores e Cidadãos -Malagueira Viva e Vivida. Um grupo de moradores e cidadãos, “não indiferentes”, que gostam da Malagueira e querem um bairro mais vivo, pensou e promoveu esta Associação para todos. Queremos um bairro que responda às necessidades de quem lá vive e que receba em troca a identificação, apropriação, estima e orgulho dos seus habitantes. Estas ruas e estas paredes merecem sair do esquecimento. Merecem o verdadeiro genius loci do traço do Mestre Siza. Todos, a começar por Évora e pela Praça do Sertório, temos que olhar para a Malagueira e merece-la. A Malagueira merece ser viva e vivida. Por isto nasceu a Associação Malagueira Viva e Vivida. Sentimos e vivemos a Malagueira e queremos que o abandono e esquecimento a que o Bairro tem sido sujeito faça, rapidamente, parte do passado. Sabemos o que falta fazer e temos um plano de ação. Vamos apresenta-lo, discuti-lo e validá-lo. Contamos com todos os cidadãos, atuais e antigos moradores, admiradores, estudiosos, entusiastas ou visitantes do Bairro da Malagueira, para a mudança de paradigma existente no bairro da Malagueira. Cada um apenas tem de fazer o que deve. O futuro não nos vai perdoar se assim não for.

Lusitano

O Lusitano faz parte da minha vida, declaração de interesse.

Escrever sobre o Lusitano não é coisa leve, é do mais sério que se pode por no papel, já que mais não seja porque faz os alentejanos felizes e orgulhosos.

Este texto é fortemente motivado pela triste notícia do falecimento do Sr. Pepe, que só soube pelo DS. Pela idade nunca tive o privilégio de ver o Sr. Pepe jogar, antes tive a sorte, enquanto criança, de conviver com o Sr. Pepe. Há mais de 50 anos, na Azaruja, fui muitas vezes para a escola de carro com o Sr Pepe. Ir de carro para a escola, era uma coisa raríssima à época. Brinquei muitas vezes com o Tonho, meu parceiro de carteira durante os quatros anos da primária, e a Mariazinha, filhos do Sr. Pepe. Pouco mais sei mas o meu pai contou-me que em idade de júnior vestiu a camisola listada do mítico clube alentejano. O meu avô, que não conheci, e que não era nada macio, proibiu-o de tal heresia e a carreira desportiva acabou.  Recentemente num almoço de amigos soube que de Motrinos, uma bonita aldeia para lá de Reguengos, vinham grupos de homens a pé para ver o Lusitano ganhar aos grandes. Era assim de muitas terras do Alentejo. Na casa do Sr. Borges Fernandes, meu vizinho já em Évora, tive a oportunidade de aceder a alguns números da Crónica Desportiva que dava conta de épicos feitos deste enorme clube. Penso que terá sido com essa bibliografia que percebi a dimensão do clube do meu coração. O Lusitano não se explica, é uma marca cultural única, identitária e por isso de grande valor. Daquelas marcas que se confundem com o Alentejo. Não é mais um clube, é o Alentejo, é único, sai fora de todos os padrões normais de clubismo. Saiba-se que o Lusitano é Membro Honorário da Ordem do Infante D. Henrique, desde 21 de janeiro de 1984 e, desde 27 de outubro de 1984, Instituição de Utilidade Pública; diariamente passam pelo Campo Estrela, “Campo” – até nisto o Lusitano é único, centenas de crianças e jovens que o procuram para praticar desporto na escola de futebol, uma das melhores a sul do Tejo. Hoje, a importância social do Lusitano mantém-se, compreende-se e sente-se muito para além da história. Por tudo isto, e muito mais, quando se escrever, falar ou decidir sobre o Lusitano tem que ser com muito respeito, a nossa alma alentejana exige-o.

Lisboa

Tão fácil. Junta-se um grupo de amigos, os que decidem a nossa vida, e Lisboa fica verde, nada menos que Capital Europeia. Quem fica horas nas filas da A2, A5 ou IC19 pensa que vive noutro planeta. Quem é escorraçado da cidade, cada vez mais desumanizada, para as terras “longínquas” dos arrabaldes, de costas para tudo o que vale a pena em Lisboa, não pode acreditar nesta coisa. Um lisboeta em Lisboa é um bem raro, a cidade, o que resta de Lisboa, é do turista e dos estudantes Erasmus. Pensa-se um pouco, “capital verde europeia”, do que estarão a falar? Quem viveu em Lisboa e volta lá de quando em vez sabe que esta ideia, cada dia que passa, é mais mentirosa. Quem sofre em Lisboa todos os dias fica incrédulo. Esta é a magia dos nossos dias. O presidente Fernando Medina, numa distração de verdade, diz que “acima de tudo, é uma convocatória de ação para o município, para o Estado…”, isto é, vamos começar agora, agora é que é. Uma das grandes ações é a “praia” de Lisboa. Daqui a dois anos, depois de estudos, Lisboa vai ter uma “praia”, isto é, uma piscina no Tejo. A capital europeia, e quiçá do mundo, que tem as melhores praias, lembrou-se de fazer uma “praia” no Tejo. Sim, as melhores praias da Europa estão na Caparica, em Sintra, Cascais, Oeste, Arrábida, Sesimbra e Tróia. Esta obra, que não vai fazer mais feliz nenhum lisboeta, é para aproximar as pessoas do rio e compara-se ao que se fez no rio Sena, em Paris, uma cidade no meio do continente. É mau e miserável de mais para ser verdade. É assim que os milhões dos elevadíssimos impostos que pagamos se estragam, faltando para o importante e essencial. É pensar mal, muito mal, e sobretudo para dentro de Lisboa, tudo o que de muito bom está à volta não conta,  “Lisboa no seu pior”. Por si, quando estiver parado na A2, ou de pé e desconfortável no comboio, pense um pouco pela sua cabeça. Deixe de ser indiferente e evolua, como apela o sítio oficial da coisa.

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan