dicionário covid

o Público de hoje lista o conjunto de palavras que todos queremos esquecer. acrescentei duas. entram-me em casa todos os dias e estou farto delas:

achatar a curva, assintomático, cerca sanitária, confinamento, coronabonds, covid 19, distância social, estado de emergência, gel desinfectante, graça, layoff, marta, máscaras, pandemia ro, segunda vaga, tele…, testes, vacina, ventiladores, wuhan, zaragatoa.

(adaptado de Público, 3 maio 2020)

trancas na porta arrombada

ri palhaço, chora homem, ladra cão.

a porta foi arrombada e estes palermas, os supostos guardiões da democracia, ainda não perceberam que nada controlam e que tudo sabem acerca deles. Como escreve JM Tavares, se querem o meu telemóvel, para minha segurança, fiquem com ele.

já agora paguem a conta.

polícia

e, num repente, há polícia por todo o lado. sente-se a polícia na rua. onde é que eles estavam?

desejo que não se esqueçam dos bandidos.

abril, sempre

Aquando do estado de emergência fiquei surpreendido por muitos sentirem que  poderia estar em causa a “sagrada família” da democracia de abril: direitos, liberdades e garantias.  Uma ameaça à democracia gritaram, considerei um despropósito. Todavia, sou agora obrigado a reconhecer que eles tinham razão. Os Órgãos de Soberania que nos impuseram e confinaram no Estado de Emergência ameaçam e põem em risco a democracia. Se assim não fosse haveria necessidade de agora comemorar abril na Assembleia da República? Uma iniciativa ao arrepio de tudo o que nos foram contando, contra tudo e todos. Todas as contraindicações, que me abstenho de enumerar, são tantas, estão vinculadas à festa programada e anunciada. Revolta-me não ter a liberdade de comemorar como entendo com os meus amigos. Vislumbro, apenas, duas razões que justificam tamanho absurdo. Pesa-lhes a consciência pelo confinamento antidemocrático a que nos submeteram e, assim, com esta “festinha” dão-nos uma espécie de compensação. Ou, pior ainda, os Órgãos de Soberania, sabem que o descontentamento do povo é tanto (corrupção, decadência dos serviços públicos, pobreza, etc.) que ao fim de 46 anos de democracia sentem a necessidade incontornável de assinalar a data, não vá a malta esquecer-se. Seja como for muito mal vai a coisa. Vamos lá explicar, porque razão, por esse país fora o povo (quem mais ordena) não poderá fazer as festas que muito bem entenda?

Talvez fosse bom, e uma salvaguarda da democracia, o povo começar a pensar pela sua própria cabeça.

Juntos venceremos e a reação não passará.

e agora?

Neste mar de dúvida, medo e incerteza devemos apostar no mesmo caminho que nos trouxe até aqui?

Toda a retórica diz-nos que devemos retomar quanto mais depressa melhor. Retomar, é mais do mesmo: 225 mil voos num só dia. Milhões de pessoas em trânsito numa vida, que está na “nuvem”, sem custos, low cost. Como se a vida fosse digital. Vai-se a um supermercado e compra-se, em qualquer altura do ano, um frasco enorme de pimentos assados (que a nada sabem) por menos de 2€. Este valor não paga o vidro do frasco, o rótulo, a tampa de metal. Vale a pena pensar em todos os outros valores e o que pagamos por eles?

E agora?

Obviamente que as centenas de milhar de camas dos hotéis espalhados pelo país não podem ficar vazias de um dia para ou outro. A transição, quando estivermos dispostos a fazê-la, ou formos obrigados, não será fácil e levará anos. Mais uma razão para começar já. O up global tem que dar lugar ao up local; mesmo que o não queiramos. Portugal tem de ter a sua própria agenda. Temos camas a mais e gente a menos: fácil de resolver, quando o problema da Terra é gente a mais. Uma equação muito fácil. Estamos na hora de uma grande reflexão pessoal e coletiva. Desde logo temos de voltar a um tempo que tenha “tempo” para as estações do ano, tempo para viver.

É tempo dos valores e da ética, de aprender com os erros e ter a coragem de mudar, mesmo que seja ao revés de muitos dos outros. A aposta nos nossos próprios recursos. Devemos apostar num turismo de alto valor, porque temos um capital natural único e muito geobiodiverso, um caminho de longo curso. Quase o oposto das “carradas de turistas depredadores” que nos invadiram. O nosso sonho tem que contar, essencialmente, com o que temos à porta de casa, o up local. Temos de vencer a ignorância e a falta de cultura e empreender uma revolução. Enquanto tratamos das emergências do momento, este tempo tem de servir para desenhar o futuro que queremos.

Ou queremos que fique tudo na mesma?

água

 

[água e solo são os principais recursos de um país]

o bom ordenamento e gestão do território é essencial para a qualidade de vida das pessoas e para a sustentabilidade do país.

bacia hidrográfica, por excelência a unidade de gestão do território.

bacia hidrográfica: uma porção de território que drena para um ponto.

#uplocal2020


o que me conta a minha janela…

a minha janela

vivemos um novo “normal” com muitas incertezas e medos, porque não dizê-lo, que nos assolam diariamente, mas temos uma certeza: a minha escolha (compreensivelmente agora um pouco mais limitada) depende só e só de mim. O que escolhe depende só de si.

o que fazemos com o tempo que agora temos e que não tínhamos?

o que faz com o “confinamento domiciliário” é uma escolha sua; porque não fazer boas escolhas?

convite:

escrever um texto sobre o que lhe conta a sua janela: emoções, medos, ansiedade, saberes, paisagens, geografias, vizinhanças, expetativas, cores, vidas, luz, noite, dia, …

uma página A4, espaçamento 1,5, letra 12.

proponho que além da página de texto associe 1 ou 2 fotografias da sua janela.

também vou escrever o que me conta a minha janela e partilhar convosco.

cupeto@uevora.pt

espero pelas vossas partilhas (anónimas) até 14 de abril.


mudar de vida

Entre medos e dúvidas quase todos acreditam que depois da tempestade é possível, e aconselhável, ficar tudo na mesma. Parece-nos normal e natural que no centro histórico de Évora existam mais de 200 alojamentos locais para turistas? É aceitável que num só dia ocorram 225 mil voos? Já agora, uma última pergunta: para que nos interessa enterrar milhões e milhões na TAP? A conversa não vai por aí, hoje. Na verdade o que ouvimos, depois da pandemia, é voltar tudo ao mesmo. Quanto antes melhor. A equação que temos para resolver é complexa e exigiria decisões únicas e improváveis. É óbvio que isso, para já, não vai acontecer. Os donos da nossa vida, muitos a viver em Bruxelas, não querem. Vendemos a alma ao diabo e o diabo conhece-nos. Temos a vida na “nuvem” e temos andado todos muito descansados a viver no máximo. Tudo nos exige, mais produtividade e mais consumo, sem regras; crescimento. O deslumbramento pela globalização convém a muito poucos mas tolda a vista a quase todos. Agora mesmo, o teletrabalho, no meu caso dar aulas e acompanhar os alunos, virou uma loucura de pressão sobre todos, mais um “vírus” que contagia e estraga o que podia ser salutar. O que me resta? Acreditar e ter esperança que cada vez há mais pessoas que pensam pela sua cabeça e se vão inconformar com esta coisa.

“Quem pode impedir a primavera? Se as árvores se vão cobrir de flores. Quem? Se os sonhos maus do inverno dão lugar à primavera?” De um poema de Ruy Cinatti. A nossa condição de humanos exige-nos que sobrevivamos, mas,  com ética e valores.

globalização

vendemos a alma ao diabo e ele conhece-nos.

ri palhaço, chora homem, sofre cão

os guardiões da democracia alertam-nos para os perigos do estado de emergência. Pode estar em causa a “sagrada família”: direitos, liberdades e garantias.

fiquei apreensivo durante alguns dias até que descobri uma vacina que partilho com todos: DEVERES. Juntemos os deveres. Ficamos com uma mesa de quatro pés, mais estável que três, e podemos ficar democraticamente tranquilos.

deveres – direitos – liberdades – garantias

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan