miséria

in: Público, 9 jul 2020

morangueiro (por Miguel Boieiro)

O que vou contar parece inverosímil face às mudanças sociais, culturais, económicas, tecnológicas e políticas que entretanto se verificaram e continuam a verificar. É bom recordar para atentar bem de onde viemos e para onde vamos. Tinha este cronista 12 anos e nunca havia saboreado morangos nem sequer sabia o que eram dióspiros, kiwis, ananases, abacates, anonas e outras espécies que agora são comuns nos supermercados em todas as épocas do ano. No inverno tinha algumas laranjas e tangerinas que caíam no chão porque as colhidas na árvore eram muito caras. Bananas, só quando alguém ia à cidade. Na primavera já se colhiam peras, damascos e ameixas. Também havia maçãs riscadinhas que os palmelões vinham vender porta-a-porta. No verão e no princípio do outono é que tínhamos fartura de figos e uvas. Ora um belo dia primaveril, lembro-me como se fosse hoje, vi na montra da Frutaria Polar um morango vermelho, carnudo, atraente, fotogénico, provocante. Custava dez tostões. Uma fortuna, naquela altura! Guloso, como sempre fui, nesse dia não resisti. Sacrifiquei parte da quantia que tinha para o almoço e comprei o tal morango. Confesso que fiquei desiludido. Tinha-o imaginado muito doce e saiu um fruto meio ácido que, num ápice, desapareceu na minha ávida goela.

Era assim a vida! Nas terras arenosas e galegas onde vivia, ainda não se dominava o regadio e a cultura dos morangos não era conhecida. Os pobres consideravam os morangos como algo de sofisticado e coisa de gente fina. Bem sei, que esta prosa pode ser esquisita à luz das realidades atuais, mas tenham paciência! Apeteceu-me iniciar desta forma a croniqueta sobre o morangueiro.

Entre a extensa e variada literatura que existe sobre os morangos, escolhi o Caderno Naturista da coleção “Alimentos que Curam”, dirigido por Nicolas Capo do Instituto de Trofoterapia de Barcelona, publicado em 1971, na sua 2ª edição. Logo na capa do pequeno caderno escreve o ilustre Professor: O morango é muito medicinal e rico em vitaminas. Convém aos doentes do fígado, rins, estômago, da prisão de ventre, reumatismo, gota, anemia, doenças dos ovários, etc. É um manjar dos deuses, morangos com mel e natas; embeleza o rosto e a pele e é um elixir de juventude.

Parece estar tudo dito para que os morangos sejam mimados. Vamos, no entanto, aduzir mais alguns ensinamentos.

Acontece que a Fragaria vesca, espécie silvestre euroasiática é uma herbácea perenifólia e estolonífera (com rizomas) da família das Rosaceae. Tem folhas tripartidas, com margens dentadas, levemente pilosas na parte de baixo. As flores hermafroditas, com cinco pétalas obovadas, são brancas e, por vezes, rosadas. A polinização é feita por insetos, principalmente por abelhas e o período de floração é longo. Dizem os especialistas que o morango é tecnicamente um pseudofruto já que provém de um recetáculo floral desenvolvido que apresenta pequenos pontos verdes ou pretos e que são esses os verdadeiros frutos. A multiplicação da planta faz-se essencialmente através de estalões (guias) enraizados.

A tal Fragaria vesca com frutos muito pequenos, após sucessivas manipulações e cruzamentos genéticos originou as espécies híbridas que encontramos nos mercados. Há hoje mais de 20 espécies com ampla distribuição em zonas temperadas e subtropicais. Julga-se que a Fragaria x ananassa é a que gera morangos maiores e mais carnudos que não são necessariamente os melhores, mas como os olhos comem primeiro…

Os morangos contêm vitaminas B5, B6 e C, betacaroteno, fósforo, potássio, cálcio, ferro, selénio, magnésio, ácido fólico, cítrico e málico, pectinas, fibras, hidratos de carbono, antioxidantes…

Entre as propriedades medicinais, para além das já mencionadas, refere-se que são estimulantes do apetite, diuréticos, antirreumáticos, alcalinizantes, auxiliares da circulação sanguínea, fortalecedores dos ossos, redutores dos problemas cardiovasculares, têm ação anticancerígena, etc. A infusão das folhas alivia inflamações e catarros respiratórios e em gargarejos afasta o mau hálito. O “chá” das raízes é bom para debelar problemas da boca e da garganta. Os morangos amassados fornecem ótimas cataplasmas para curar chagas, feridas e queimaduras. Em banhos de imersão são calmantes. Entram também na elaboração de cremes para a cútis, reduzindo manchas e sardas.

Na culinária, especialmente na doçaria, os morangos são altamente versáteis. O professor Capo elenca no seu caderno algumas dezenas de receitas naturistas, recomendando que não convém comer morangos como sobremesa e não se devem misturar com hortaliças, saladas, gorduras, fritos, vinagre e bebidas alcoólicas.

Acrescente-se que as folhas tenras do morangueiro são comestíveis.

A terminar, uma precaução muito importante: sendo o morangueiro uma planta rasteira sempre em contacto com o solo, os seus frágeis frutos podem contaminar-se facilmente. Deste modo, convém ter muita atenção acerca da sua proveniência e preferir sempre os que são de cultura biológica.

agora

é agora

casta alentejana

Sou independente, democrata liberal que presa a liberdade individual e a responsabilidade perante os outros;  somos todos iguais nos direitos e nos deveres. Entre outras, há duas coisas que me custam: conversar com alguém que se julga dono da “verdade” e ser politicamente correto, só porque sim.

Orlando Ribeiro, o maior geógrafo português de sempre, explica o que somos pelo terroir, isto é, pela geologia e clima. Se é assim com vinho e com tudo o resto porque não seria com os humanos? Na verdade, o minhoto é diferente do alentejano como Orlando Ribeiro exemplifica. Somos a terra onde nascemos e vivemos. Se não perceber isto paciência. Sou branco, moreno, quase meio “aciganado”, alentejano e assim serei até ao fim; diferente dos algarvios, dos louros da Holanda e dos pretos de África. Somos todos diferentes. Aqui, no Alentejo, sobretudo a seguir ao almoço o ritmo de trabalho não pode ser elevado. Se não compreendem, os conterrâneos da Merkel que venham cá experimentar uma semana e depois conversamos. Não quero os queijos franceses, o vinho de Bordéus, as pizzas italianas ou os 5 jotas espanhóis; quero os queijos do Cano, os chouriços de Estremoz, o presunto de Barrancos, o vinho da Vidigueira ou Borba e o azeite de Moura. Isto, e tudo à volta, é o melhor do mundo para o meu modo de vida na terra onde nasci. Por isto e muito mais, sou um obcecado pelo up local, não agora, desde sempre. Eu sou, a vida que tenho é o que Sou, nem mais nem menos. Contrariar isto é contra a Natureza; o resultado começa a ser demasiado inequívoco para ser negado. Quero ser remediado e feliz, na terra onde nasci, honrando a cultura e os saberes dos meus antepassados. Pode ser?

Portugal, onde estás?

minas para quê?

sim, sim, um país carregado de hipocrisia mas “livre” de petróleo e de minerais/metais.
vamos acabar com os pacemaker, certo?
se os metais vierem de longe não tem problema?
com o petróleo idem.
ainda acreditamos nos estudos de impacte ambiental?

https://www.dropbox.com/s/q8li2ohnu8dm6h6/avalia%C3%A7%C3%A3o%20ambiental%20-%20Expresso%20-%2022%20dez%2018%20-%20carlos%20cupeto-pages-35.pdf?dl=0


grande aposta nacional esta de pobres mas honrados, perdão, patetas e vigaristas.

casta alentejana

Henrique Monteiro (Expresso, 20 jun 2020)

Orlando Ribeiro, se não se importam, o maior geógrafo português de sempre, explica o que somos pelo terroir, isto é, pela geologia e clima da terra que nos vê nascer. Na verdade, o minhoto é diferente do alentejano como ele exemplifica. Somos a terra onde nascemos e vivemos. Se não perceber isto paciência. Sou alentejano e assim serei até ao fim; diferente dos algarvios, dos louros da Holanda e dos pretos de África. Somos todos diferentes. Aqui, no Alentejo, sobretudo a seguir ao almoço o ritmo de trabalho não pode ser elevado. Se não compreende lamento; os conterrâneos da Merkel que venham cá experimentar uma semana e depois conversamos. Não quero os queijos franceses, as pizas italianas, os vinhos da Toscana ou os 5 jotas espanhóis; quero os queijos do Cano, os chouriços de Estremoz, o presunto de Barrancos, o vinho da Vidigueira e o azeite de Moura. Isto, e tudo à volta, é o melhor do mundo para o meu modo de vida na terra onde nasci. Por isto e muito mais, sou um obcecado pelo up local, não agora, desde sempre. Eu sou, e a vida que tenho é o que Sou, nem mais nem menos. Contrariar isto é contra a Natureza; o resultado começa a ser demasiado inequívoco para ser negado. Quero ser rico, ser feliz, na terra onde nasci, honrando a cultura e os saberes dos meus antepassados. Pode ser?

alterações climáticas

pacto ecológico europeu

ao longo de décadas quantas “boas intenções” destas já houve? o que aconteceu? porque vai agora ser diferente?

coisas de vinho

um livro incontornável

i

a última noite de Z Herbert em Siena, na Toscana, terra de Chianti,  antes de viajar para Paris…

“A pequena trattoria enche-se da multidão dos clientes…

Com conhecimento e apetite, que cresceram de geração em geração, comem spaghetti, bebem vinho, conversam, jogam às cartas e aos dados.

Peço ao dono da trattoria um vinho melhor. Traz-me um chianti do ano anterior da sua própria cave. Conta-me que a sua família possuía aquela vinha há quatrocentos anos e que aquele é o melhor chianti de Siena. Depois, ficou a olhar para mim atrás do balcão para ver o que eu faria com aquela preciosa bebida.

É preciso inclinar o copo para ver o líquido deslizar pelo vidro e verificar se não deixa vestígios. A seguir, é preciso erguer o copo até aos olhos e, tal como diz certo conhecedor francês, afundar os olhos em verdadeiros rubis e contemplar a bebida como se fosse um mar chinês repleto de corais e algas. O terceiro gesto é o de aproximar a boca do copo ao lábio inferior e aspirar o cheiro mammola – o buquê de violetas que anuncia às narinas que o chianti é bom. É preciso inspirar o aroma do vinho até ao fundo dos pulmões para reter o odor das uvas maduras e da terra. Por último, evitando a pressa de um bárbaro, deve levar-se à boca um pequeno gole e, com a língua, espalhar o sabor escuro e aveludado pelo céu-da-boca.

Regresso às Tre Donzelle. Apetecia-me acordar a camareira e dizer-lhe…

Se não tivesse medo da palavra, diria que até ali fui feliz. Mas não tenho a certeza de ser bem interpretado.

Vou-me deitar com os versos de Ungaretti. Na sua obra, há um poema apropriado a despedidas;

Vejo de novo os teus lábios lentos

À noite, o mar vai ao seu encontro

As patas do teu cavalo

Em agonia mergulham

Nos meus braços cantantes

Vejo que o sono traz de novo

Novos desabrochares e novos defuntos

Uma má solidão

Que todo o amante em si descobre

Como um vasto túmulo,

Separa-me de ti para sempre,

Querida, afogada em espelhos longínquos.”

política

13 de maio é 13 de maio.
a política voltou em boa hora.
os grandes estadistas que nos governam afinal enganam-se uns aos outros;
com o dinheiro dos nossos impostos.

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan