turismo e sustentabilidade (observatório)

Começo por confessar que a palavra “observatório”, tanto na moda nos nossos tempos, me deixa, imediatamente, com alguma desconfiança. Não se trata da mania de “ser do contra”, como sempre esforço-me por ser positivo e participativo como devo. Salvo raras e boas exceções, nunca vi sair nada de verdadeiramente transformador desses centros de análise e estudo, os observatórios; desde logo, se se limitam a observar, é francamente pouco, digo eu. Na verdade, era muito bom que a título de amostra se escolhesse meia dúzia de observatórios, daqueles que todos pagamos, e se fizesse uma simples e básica análise custo-benefício. No caso em apreço, o anunciado observatório de turismo sustentável no Alentejo, provavelmente, vão-me acenar com a Organização Mundial de Turismo (OMT), que recomenda a existência de observatórios de vocação regional que monitorizem e recolham informação sobre a atividade turística;  mesmo ao jeito da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo.

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Tejo – confraria

A propósito da história que hoje escrevo dei conta de quase uma dúzia de escritos especificamente sobre o Tejo. Reli alguns e confesso que este cortejo de textos ao longo de quase cinco anos é, em meu entender, um contributo para a causa de que me orgulho.  Às vezes, a curiosidade é maior que o bom senso e cometemos “loucuras”. Assim foi no feriado de 15, em que rumei a Cáceres pelo Tejo, onde a Confraria Ibérica do Tejo (CIT) organizou um seminário. Mais um a juntar a dezenas de outros que deste há muito vão acontecendo. Como cristão, interrogo-me se terá sido pecado dedicar um feriado santo a ir a Cáceres. Na verdade, o Tejo merece isto e muito mais e, no fim, valeu a pena ir a Cáceres.

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comunicar com ética (Conversas de Cesta)

é já no próximo domingo que vamos conversar informalmente sobre comunicação.

a sua parte é “dever em participar”, isto é, estar presente e partilhar na constituição de uma rede informal de partilha de saberes úteis. Só assim, por dentro, participando na tomada de decisão podemos contribuir para um país melhor onde não morram meia centenas de pessoas numa estrada a arder.

sinta-se convidado e convide, domingo, 25 de junho, 18:00 no Junqueiro (Parede/Carcavelos).

fogo 2017

2017, tudo como dantes. Um ano e uma comissão interministerial de sete ministros depois, o que mudou? Nada.

Somos um país de 3º mundo (bombeiros voluntários, gente que descansa a consciência com paletes de leite para os bombeiros e roupas para os desalojados…) com riscos, sistemas (comunicações, centro de comando…), equipamentos (jipes, carros de combate, fardas…) de 1º mundo.

A tragédia, naturalmente (como poderia ter sido diferente?),  abateu-se sobre o nosso campo. Como avaliar, mais uma vez, o que aconteceu? Aos factos associam-se os comentários e os fabulosos e sábios inventários infinitos de causas. O mais provável é que a principal causa esteja num computador central, algures em Lisboa, sem o qual a decisão não é tomada… Isto é, quem vive o local e conhece os bois pelos nomes, por exemplo: dois GNR, que cortam uma estrada de que o PC de Lisboa nunca ouviu falar, podem evitar meia centena de muito tristes e escandalosas mortes.

Se a dona do café sabia a GNR e os bombeiros locais não?

“Uns metros à frente, no café-restaurante Gil, Lurdes Henriques descreve o mesmo filme. “Muitos turistas até jantaram cá, mas depois entraram em pânico. Queriam ir para Lisboa, só falavam em Lisboa. A uns ainda lhes disse para irem para o lado da Lousã [local contrário à direcção das chamas], a outros, um casal com duas crianças, tanto lhes pedi para não irem. Ainda levaram uma garrafa de água”, lembra.” In: Rádio Renascença, 21 de junho, 8:20.

(http://rr.sapo.pt/noticia/86783/da_agua_ao_fogo_porque_nao_fechou_a_n236_1_a_estrada_da_morte?utm_medium=email&utm_source=newsletter)

No fim os cães ladram e o cortejo de vaidades com bonitas fardas e bons jipes com pirilampos estridentes vai passar e continuar intocável até à próxima.

João Miguel Tavares, no Público (20 de jun.), escreve: “apaziguamos a alma com donativos. Vemos o presidente da República desculpar toda a gente ainda antes de saber o que aconteceu. ”

Fica uma certeza e algumas incertezas, vai voltar a acontecer, não sabemos quando e onde; tudo o que é risco natural acontece nos países ricos e nos pobres. Tudo o resto é outra conversa.

Triste tempo este em que mais recursos, mais meios, mais quase tudo, significa menos, muito menos do essencial. Esta é, na verdade, a maior e mais grave das pobrezas, a incapacidade de fazer o que se deve.

a arder como dantes…:

https://www.dropbox.com/s/803uq8qkcjm85nw/a%20arder%20como%20dantes%20-%20carlos%20cupeto.pdf?dl=0

avaliar

Avaliar é a pior das tarefas de um professor. Custa-me cada vez mais. Talvez porque ao longo da vida profissional, felizmente estupidamente rica, fui encontrando o que de mais estapafúrdio se possa imaginar. A dada altura trabalhei num projeto empresarial onde é preciso dar a resposta requerida no prazo certo com os meios disponíveis (orçamento) com uma licenciada em ambiente que tinha sido aluna brilhantíssima; o resultado foi catastrófico. Será que a classificações excepcionais não correspondem, necessariamente, bons desempenhos profissionais?  Cada ano que passa um 12 ou 17 pouco ou nada me dizem. Sei que o modelo vigente, muito semelhante há dezenas de anos (acima de 10 é positivo, abaixo é negativo), não serve e mostra-se incapaz de reflectir a aptidão para o desempenho de determinada função. Noto igualmente que há, a par de um alheamento (deixa andar) por parte dos estudantes, uma enorme distância para o “mundo lá fora”.

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afonso (emoções com ténis)

Quando menos se espera as pequenas coisas acontecem e marcam-nos.

Naquele tempo em Évora todos nos conhecíamos, bem ou mal. Cada um quase era uma figura, o Afonso era mesmo. Distinguia-se pela elegância e bom estilo, a namorada não ficava atrás, antes pelo contrário. Não me recordo se alguma vez bebi uma imperial com o Afonso? Tenho a plena consciência que o Afonso jogava noutra divisão da juventude eborense. A esta distância a divisão café Portugal – Arcada e depois com a intrusão da Zoca até tem piada; na época eram “coisas imexíveis”. Não tenho a plena certeza mas resta-me a memória que o Afonso andava um pouco na margem disto tudo, embora mais para lá (Portugal) do que para cá (Arcada-Zoca). Com o Afonso tinha alguns amigos comuns. Hoje o vereador Eduardo Luciano julga que isto é ficção mas engana-se, era assim Évora há quase 50 anos. Apesar de tudo, em muita coisa, bem melhor que hoje.

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vinho

Desde outubro do passado ano que levamos a cabo a Coisas de vinho, uma tertúlia que procura contribuir para enaltecer a cultura, a arte e a ciência do vinho. Foram 8 magníficas sessões que nos convidam a comemorar o sucesso.

Coisas de vinho encerra  o ano de actividades na rua – o tema é o vinho no verão.

A oradora é Maria João Cabrita, docente na Universidade de Évora; os vinhos à prova são da Adega Cooperativa da Vidigueira e são apresentados por Luís Leão.

Na Mercearia do Largo, Largo Álvaro Velho (em frente à Pousada da Juventude – antigo hotel Planície), sexta-feira, dia 16, 18:00.

Venha celebrar o vinho e o verão e prove o verão alentejano num copo, partilhe e traga amigos.

 

 

acordo de Paris

O presidente dos Estados Unidos rasgou o acordo de Paris sobre alterações climáticas. Vale a pena nós, leitores de o Diário do Sul, focarmo-nos e esgotarmos a nossa atenção neste tema? Duvido muito. Anda meio mundo a falar sobre o tema, o que é quase tão nefasto como a própria decisão de Trump; distraímo-nos.  Acredito que, contrariamente ao que gritam, a trumpada interessa enormemente aos governantes europeus que assim têm um bom bode expiatório para nos contentar. Como sabemos, o acordo de Paris, como todos os outros que o antecederam, não é mais que um entretém que nada resolve do que deve. Deve ficar muito claro e explicito que com este escrito não apoio Trump nem tão pouco a sua decisão. Apenas compreendo que, num contexto completamente insustentável, de miséria, muitas cidades americanas se regozijem por as minas de carvão voltarem a laborar.

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dia do ambiente

Dentro de dias alguns celebram mais um dia internacional do ambiente. Se tudo tem dias, porque não o ambiente? Nesse dia, algumas associações ambientalistas inúteis e prejudiciais à causa, vão procurar ecrã com mais alguns estudos de coisa nenhuma: uns dados da Agência Portuguesa do Ambiente com tratamento estatístico são quanto basta. Entretanto, a semana passada, uma revista semanal da nossa praça fez o seu número anual a que chama “edição verde”. O melhor respeita a uma entrevista aquele que foi o responsável da BBC pelos mais espectaculares programas de TV sobre natureza realizados até hoje. Diz o senhor Tom Hugh-Jones que o mais assustador “não é Donald Trump, somos todos nós – a forma como vivo a minha vida…, a forma como as pessoas que conheço vivem as suas vidas… Bem posso dizer que me preocupo com as alterações climáticas mas depois vou de avião para Portugal. Fico envergonhado por não conseguir comprometer-me mais.” Concordamos totalmente, escrevemo-lo no DS muitas vezes: o dia europeu sem carros, o dia do ambiente e quase tudo o resto é um folclore que só serve para não fazer o que devemos.

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solo e água

Nas nossas terras todos conhecemos alguns sinais, bons exemplos, indicando-nos que alguma coisa está em processo de mudança para melhor. Enquanto o folclore, às vezes ofensivo, das startups anima os nossos melhores centros de excelência, quase sempre ligados às universidades, a fazerem inutilidades em série, o mundo real onde as pessoas vivem, onde os rios correm e as árvores crescem, começa a mostrar-nos excelentes práticas. Num destes fins de semana tentei visitar num dos bairros, tipicamente rural, da cidade em que habito, um mercado local que começa a ter fama. Os pequenos produtores juntaram-se, ganharam alguma escala, ajudam-se e a coisa está a correr bem; entre a agricultura tradicional e a biológica, as pessoas reconhecem a qualidade dos produtos e aderem com natural facilidade.  Escrevo “tentei”, porque, como um perfeito urbano, falhei o dia, fui no sábado e o mercado é ao domingo. Mas, graças à simpatia das pessoas simples do campo, rapidamente fui informado que ali mesmo ao lado num outro bairro – daqueles que não deviam existir, porque não é rural nem urbano e de qualidade nada tem –, havia nesse mesmo dia um mercado “muito melhor”.

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Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan