Borba, um ano depois

… um ano depois aos costumes disse nada. A aposta é sermos um país pobre e quando assim é estragamos recursos.

no jornal Público uma reflexão:

https://www.dropbox.com/s/1mzg6p8r4frln2d/Borba%20um%20ano%20depois%20-%20c%20cupeto%20-%20P%C3%BAblico%20-%209%20dez%202019.pdf?dl=0

desperdício

Se há uma só palavra que caracteriza o nosso tempo e modo de vida é, sem dúvida, desperdício.

Toda a outra conversa de solução tecnológica e/ou organizacional (tipo “economia circular”) para a catástrofe ambiental é totalmente inconsequente. Sejamos verdadeiros.

 É certo que é no desperdício que somos verdadeiramente eficazes. Mal usamos tudo o que tocamos: alimentos, energia, água e até o tempo. Vivíamos perto do local de trabalho, íamos almoçar a casa e agora é o que sabemos. Lembro-me de a minha mãe estar algumas vezes sem ferro de passar a roupa porque o aparelho tinha ido arranjar ao eletricista, que por acaso até vivia no piso de cima. Parece um mundo de ficção, mas não foi assim há tanto tempo. Entretanto, fazem-nos crer que os recursos são infinitos e gratuitos. Os limões chegam-nos do Chile e as reservas de petróleo são inesgotáveis, é mais fácil acreditar no Pai Natal.

Querem-nos vender tudo, as campanhas comerciais assumem uma dimensão sem paralelo e tudo o que não nos interessa passa para o estatuto inverso, os preços dizem-se irrecusáveis e compramos o que não precisamos. Somos alegremente enganados e sentimo-nos felizes. Os centros comerciais são atrativos únicos de grande satisfação para pequenos e graúdos.

Choca-me profundamente o nível de consciência de um coletivo que se deixa ir atrás de um folclore consumista, escandalosamente agressivo, e que se esquece do essencial.

Procura-se agora teoricamente atingir um objetivo que há muito pouco tempo se praticava nas nossas terras: “lixo zero”. Nada se desperdiçava, o porco e as galinhas ajudavam. Agora, para compensar, há uma associação, dita Zero, que supostamente nos defende das agressões ambientais. Zero a fazer muito lixo.

Como nada muda se não mudarmos nós, tudo isto se vai mantendo como se fosse possível e aceitável que uma minoria, muito minoria, delapide um bem comum como se nada fosse. Só falta saber por onde vai quebrar e quando?

descentralização-regionalização

Há muitos, muitos anos, fui um fervoroso entusiasta da regionalização, tive como exemplo, muito precocemente, a Extremadura, o exemplo das coisas boas. Os anos trouxeram-me a realidade lapidar e quando votei foi um convicto “não”. O tempo deu-nos razão, para estragar dinheiro já chega o Terreiro do Paço. O país é tão pequeno, as novas tecnologias fizeram-no ainda mais pequeno, que a questão de proximidade não pega. E mais, a qualidade da decisão não depende da proximidade. Se o Alentejo não tem peso político em Lisboa para conseguir os meios, os Euros, que supostamente necessita como o vai conseguir num modelo mais descentralizado ou de regiões? Sim porque se trata só disso, “mais dinheiro”, vindo não se sabe de onde. Vamos votar a Comissão de Coordenação e tudo fica resolvido? Como se consegue o passo de mágica de conseguir mais dinheiro? Será que temos políticos de qualidade suficientes para nos governarem localmente?  Se queremos falar seriamente da coisa temos que começar por questionar o concelho de Arraiolos. A existência do concelho de Arraiolos faz sentido? O absurdo de Arronches, ali ao lado de Elvas, serve para quê? Estragar dinheiro. E como estes tantos outros. Se queremos mais meios, mais racionalidade, mais riqueza temos que ter coragem e fazer por isso. Ninguém o vem fazer por nós e nos vem dar o que seja para resolvermos o despovoamento e pobreza que nos caracteriza como região. Évora-Arraiolos é o excelente exemplo que me vai servir para uma verdadeira proposta de “up local”.

interior

O interior é aquela coisa a preto e branco, triste, envelhecida e pobre em oposição a outra, colorida, jovem, alegre e rica, o litoral.

Já tudo aconteceu a favor do interior: um Movimento pelo Interior (ilustres personalidades, desde ex-ministros a autarcas, empresários e professores, como se nenhum deles jamais tivesse a ver com decisões sobre a governança do país), uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior, e agora, com o atual governo, um emaranhado de Ministérios e Secretarias de Estado que se sobrepõem e atropelam pela nobre causa. Deseja-se “diferenciar positivamente o interior”. Antes disto tudo, em sucessivos ciclos de governação, já houve dezenas de cangalhadas destas.  O resultado está à vista. Recordo que o anterior governo criou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, para que serviu?

Alguns factos: o interior tem tudo, está excelentemente infraestruturado; desde sempre, e cada vez mais, há famílias de estrangeiros que se instalaram no interior onde vivem ricas e felizes; emigraram 2,5 milhões de portugueses; trinta por cento da população do Luxemburgo são portugueses, este país tem um dos maiores PIB da Europa. Tão pouco nos faltou dinheiro para o interior, em variadíssimos e originais programas; o Eurodeputado Zorrinho e ex-Comissário Moedas sabem-no bem.

Sempre me interroguei sobre o que distingue um jovem casal de holandeses que há umas dezenas de anos se instalou no interior? São felizes e criam riqueza sobejante. Interrogo-me também sobre o que falta fazer ao inexcedível Armindo Jacinto, Presidente de Idanha -a – Nova, para ter sucesso na revitalização da sua terra, uma das mais despovoadas do país? Precisamente por iniciativa do autarca de Idanha, em dezembro de 2017, em Lisboa foi apresentada uma estratégia para o interior: O mundo rural e o desenvolvimento económico e social de Portugal, que o inevitável Prof. Augusto Mateus, coordenador da equipa autora, apresentou com o habitual entusiasmo. Para além do “mundo rural, porque sim”, digam lá que não soa bem, como sempre, nada mais. Tudo, mas tudo, sobretudo a realidade e os factos, conduzem-me cada vez mais a uma resposta: a cabeça das pessoas, isto é, a mentalidade, o nível de consciência. A isto chama-se atitude; os portugueses valorizam os bons automóveis e as luzes dos shoppings. A diferença é a atitude das pessoas, moldadas durante muitos anos pela educação e cultura. E isto, meus amigos, não se altera com Movimentos e Programas. Será que temos de continuar pobres?


Borba um ano depois

o país que somos. Necessitamos de melhor Estado e melhores empresários.

https://www.publico.pt/2019/12/09/sociedade/opiniao/borba-ano-1896143

a neve da Greta

A Greta chegou à doca de Santos e ali perto, em Algés, há neve, gelo e tudo o mais a que um povo pobre tem direito. Greta trouxe neve. Em Algés, como em todo o país, o Natal  é a oportunidade para uma grande, cara e escandalosa parvoíce: pistas de gelo, arte em gelo e até neve. Enquanto isto, uma gaiata de 16 anos vem cá dizer-nos o que temos de fazer e é recebida com pompa e circunstância, quase com honras de Estado. Não há santa terrinha que não tenha uma pista de gelo. Será que as infinitas pistas de gelo, uma verdadeira aberração cultural e ambiental, não incomodam os PAN da nossa vida? Já alguém questionou esta moda do Natal como se estivéssemos na Suécia? Haja paciência. Acontece que, “ao lado”, massacram-nos com palermices mentirosas como grandes arautos e salvadores da Terra. Alguém, para além do nosso ministro do Ambiente, “que tudo faz, sem nada fazer”, já fez alguma coisa significativa e que valha a pena para a grande causa da emergência climática? Já repararam que apesar das sucessivas cimeiras, relatórios e discursos inflamados, os indicadores são cada vez piores? Querem que os levemos a sério? Querem que fiquemos entusiasmados com os discursos do Guterres? A retórica é irrepreensível, e o resto, a ação? Engº Guterres, pelo menos, diga-nos: como se faz? Quem, que setor, dá o primeiro passo? Será que aceitam falar seriamente no turismo depredador assente no low cost e no consumo máximo? Não há transição possível, só mesmo rotura, ou vamos bater no muro de frente e aí, sim, a coisa muda. Se os dinossauros nos pudessem contar como foi… Já agora, com que dinheiro são pagas as pistas de gelo e qual o custo ambiental de uma cretinice destas? Será que nenhum senhor deputado se interessa por esta matéria?

ordenado mínimo

Imagine o leitor que, para viver, a sua família necessita todos os meses de 2,5 vezes os recursos que tem disponíveis (no frigorífico, na dispensa, no banco etc.). Não é preciso ser especialista de qualquer coisa, ou pensar muito, para saber qual vai ser o fim. Portugal é assim, para a vida que temos, necessitamos todos os anos de 2,5 vezes a área do nosso país: 2,5 países para termos os recursos que consumimos. Esta é a nossa miserável sustentabilidade. A legislatura arranca com o tema “acordo social” e “aproximar os ordenados dos trabalhadores do lucro das empresas”, segundo as palavras de António Costa. Na verdade, o ordenado mínimo de Portugal, e os outros, o meu e o seu, são miseráveis; só comparáveis à nossa produtividade. Acontece que ninguém fala nesta última, que não se altera com “conversa política”. Como qualquer um de nós percebe, as contas desta equação, ordenado-produtividade, não vão dar bom resultado. Nessa altura, cá estaremos para, mais uma vez, nos baterem à porta e nos pedirem contas.Para ter a certeza do que aqui escrevo consultei  alguns amigos empresários, de todos o quadrantes políticos, designadamente do PCP. A resposta foi unânime e infelizmente tenho razão. Vivemos então num tempo de “faz de conta”, de mentira, do tipo “nunca pareceu estar tão bem e está tão mal”. Para  começar a inverter a coisa, e podermos ter melhores ordenados sustentadamente, é bom que cada um comece a pensar pela sua cabeça e ver a um pouco mais além do que parece.

saúde e justiça

A minha mãe foi enfermeira há quase 70 anos, no primeiro curso da Escola de Enfermagem de Évora. Brinquei nos corredores desta casa e por isso muito a estimo e, obviamente, considero os seus profissionais. Escrevo em jornais e revistas há 25 anos e totalizo mais de 500 artigos publicados. Fui diretor da principal revista portuguesa de ambiente durante cerca de 10 anos e tenho a Carteira de Jornalista há quase 20 anos. Nunca escrevi nada que fosse objeto de qualquer tipo de queixa, até que, em dezembro de 2017, quase há dois anos, um texto no Diário do Sul onde comecei por expressar que não era opinião mas sim o relato de fatos, seguramente verdadeiros. “Hospital de Évora, um horror” foi o título desse texto. Por tudo aquilo que todos os dias, lemos, ouvimos e vemos acerca da saúde em Portugal o caso que relatei é apenas mais um. Na sequência, dois ou três dias depois, recebi uma carta da Administração do Hospital a ameaçar-me de fazer queixa junto do Ministério Público. Uns bons meses despois quando fui chamado a apresentar-me no DIAP, não fazia a mínima ideia de qual a causa. Fui tratado como um bandido pela funcionária que não quis acreditar que eu não sabia o que estava ali a fazer e lhe custou a aceitar que eu não fosse acompanhado de um advogado. Um advogado pago por mim, os do Hospital, são pagos por nós todos. Marcada uma nova data lá voltei com o advogado e soube o que estava ali a fazer. Fui inquirido e o processo foi arquivado. A Administração do Hospital não terá ficado satisfeita. Deduziu acusação particular.  Entretém-se dar trabalho aos juristas que nós pagamos. Cumpridos os procedimentos jurídicos adequados aguardo, como um eventual criminoso,  na condição de arguido,  quase meio ano depois da data marcada para conhecer uma decisão do DIAP de Évora.  É este o Estado que temos e que tão caro nos custa.

pedreiras seguras…

…com sinais e arame (vedações “tipo gado”) resolve-se o problema do risco nas pedreiras. Alguém se lembra de alguma pessoa, cidadão ou operário, ter caído numa pedreira? É muito provável que tenha acontecido mas ninguém se lembra. O Ministério do Ambiente diz-se satisfeito com o trabalho feito nas pedreiras ao longo deste ano. “A situação de risco é muito menor do que era há um ano”, diz Matos Fernandes; com arame e sinais, digo eu. “Não há memória de uma dinâmica destas em Portugal, e valeu mesmo a pena a nossa determinação” (Matos Fernandes), o consumo de tinta e arame em Portugal disparou.

fotografia do Público

e se abríssemos os olhos?

lítio & Greta

como tudo o resto (petróleo, ouro, etc.) em matéria de recursos geológicos, que devem a sua localização exclusivamente a factores geológicos, o país “não quer nem saber”. Qualquer “povo” tem a câmara da TV à frente e diz os disparates que lhe aprouver com o mesmo valor de quem estuda e trabalha a coisa. O Secretário de Estado do brinco tem alguma razão na substância mas não tem nada ver com o assunto, apenas segue a aplicação da lei e os pareceres da Administração competente. Sabe bem a cartilha do chefe Costa; assim não se compreende para que existe? António Barreto escreveu: “As esquerdas, auto-sufcientes, exauriram o Estado competente, técnico e inteligente, para o transformar em agente político e já agora em sua coutada. As direitas, cúpidas, esvaziaram o Estado sabedor, capaz e independente, para entregar poderes e competências aos negócios e aos privados. O Estado, hoje, é alfobre de negócios, tapada dos partidos, autoritário como os ignorantes, convencido como os déspotas! E ao serviço da política mais barata, a dos interesses.”

era só mesmo o que faltava, Greta vem ao Parlamento dizer-nos o que devemos fazer. Aproveitem e perguntem-lhe sobre o lítio.

Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan