viva o 25 de Abril

Viva o 25 de abril? Obviamente. Ainda se questiona abril? Ou alguém nos continua a enganar e a subjugar?  Sinto-me incomodado, ao fim de 47 anos, por ainda haver a necessidade de publicitar a democracia e fazer com que não se esqueça. Será que o fascismo ainda por aí anda à espreita e é uma ameaça para abril? Se assim for, o meu incómodo passa a terror. Na verdade, em Évora, vejo um cartaz que diz “viva o 25 de abril, fascismo não”; 47 anos depois? Será esta uma preocupação dos portugueses que são livres ideologicamente e de interesses? Um cartaz destes leva-me a pensar que o mesmo povo que foi subjugado pela ditadura e preso pela PIDE, ainda está agora, 47 anos depois, preso por interesses que não os seus. Porque ouço, cada vez com mais insistência, que é preciso “aprofundar a democracia”? Ao fim de 47 anos ainda nos falta democracia? Quem são os responsáveis e o que andámos a fazer? Quem boicotou abril? A situação a que chegámos é culpa dos fascistas que ainda por aí andam? O que justifica esta suposta ameaça do fascismo? O que falta fazer?

Sabemos que estamos cada vez mais pobres (não se aceita a hipocrisia de nos compararmos com o 24 de abril de 74, a comparação só pode ser feita com os países da nossa geografia nos dias de hoje), que as desigualdades são cada vez maiores e que o “construam-me porra” do Alqueva se traduz, entre muita matéria questionável, em imigrantes a ganharem 400 €/mês e a viver sub-humanamente, à meia dúzia em cada “quarto”. Certamente que nada disto é abril. Tudo isto me envergonha e incomoda profundamente. Talvez seja tempo de verdade. De pensarmos por nós, acreditarmos na nossa terra, nas nossas capacidades e nos nossos recursos. Não é aceitável que cerca de 30% do nosso povo, os melhores e mais talentosos, tenha que sair do seu país para criar a riqueza que aqui não consegue. Por cá, a intensidade energética é altíssima, a produtividade ridícula e a carga fiscal absurda (a pesadíssima e ineficaz máquina do Estado não tem alternativa): o resultado final só pode ser um “mau”. Quarenta e sete anos depois isto satisfaz alguém? Isto chega-nos, ou é melhor arriscar por outros caminhos? Acreditamos que vem aí um saco de dinheiro, mais um, que vai resolver a coisa? Ou queremos aceitar a verdade e o caminho certo que nos dê alguma esperança de podermos construir um país mais justo, próspero e feliz? Vou continuar a ter esperança.

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Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan