democracia da diferença

Primeiro a declaração de interesse: direitos e deveres iguais para todos, esta é a democracia que me basta.

O vírus não está, obviamente, sozinho e não surge do nada num qualquer mercado chinês. Chegámos ao ponto onde estamos em consequência de um largo conjunto de equívocos e enganos demagógicos. Felizmente surgem algumas luzes que nos trazem a tão necessária esperança. Já aqui citei o clarividente socialista António Barreto que todos os sábados, no Público, partilha excelente matéria de reflexão. Escreveu António Barreto, um destes dias, que “cidadão do mundo não é cidadão de parte alguma” – diz tanto com tão poucas palavras. Quase que de nada mais necessitamos para compreender o triste ponto em que nos encontramos. Obviamente que a classe política vigente, fortemente condicionada por tabus ideológicos, foge disto como o diabo da cruz. Algum dia, com mais dados, alguns habilitados farão um balanço trágico deste tempo. Por enquanto, poucos, mas felizmente cada vez mais, começam a desconfiar do modelo global, sem limites, sem fronteiras, de recursos não tangíveis, do low cost, dos limões do Chile a 2€/kg, do “todos iguais”, etc., que nos trouxe ao agora. Estas e muitas outras mentiras estruturam o mundo em que vivemos. “Os homens e as mulheres procuram bem-estar, segurança e liberdade nos seus grupos de referência, de pertença e de identidade. Há dois mil anos que se conhece a reflexão dos filósofos sobre a tendência gregária das pessoas. Família, grupo, associação, comunidade, tribo, culto, país, Estado e nação… A história da humanidade é, em parte, a história destes agrupamentos e das suas glórias”, escreve A. Barreto. Na verdade, numa simples página, Orlando Ribeiro já nos tinha demonstrado por que razões o minhoto é, naturalmente, diferente do alentejano. Li há pouco tempo o soberbo ex-estudante de metalurgia coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, onde se afirmou como eminente filósofo do nosso tempo, sintetizar a coisa como o “inferno do igual”. Neste inferno, vivemos sem raízes na hipercultura do nada. Que excelente ilusória liberdade democrática esta! Na verdade, sem lugar, o Homem fica vulnerável e frágil; a vida necessita de raízes e cultura própria, onde está o tempo necessário à autenticidade e à comunidade. Entretanto, tudo isto e algo mais ajuda a perceber o “fenómeno Ventura” no Alentejo e porque morrem mais velhos vítimas de covid aqui do que no norte? A causa é a mesma, queira-se ou não; apesar de tudo, a estrutura familiar e a identidade do lugar estão mais presentes no norte, sentem-se e fazem parte do quotidiano, o que é uma boa vacina para os inúmeros vírus que nos batem à porta. Neste tempo faz a diferença.

Mais uma vez, viva o up local, onde estão os únicos recursos que contam: solo, água e pessoas.

Só vê quem quer e pode, até nisto somos todos diferentes.

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Adaptado de Esquire, de Matthew Buchanan